O extremo de nosso continente Brasil fica em Touros, mais precisamente no Farol do Calcanhar (Crédito: DT)

Extremoz tem uma conotação açucarada da Língua Portuguesa trazida pelos patrícios quando aqui aportaram. Tupinicamos o nome retirando o S de Estremoz, de Évora, por nosso X potiguar e,  esse nome, como tantos outros, se calcificaram em nosso linguajar.

por Paulo Atzingen*

Se o nome foi dado para batizar o extremo nordeste do país os nossos antepassados caraveleiros erraram por 70 quilômetros. À época, O easy e o GPS eram as cartas náuticas em mar e em terra nossos colonizadores utilizavam o chutômetro. Bola fora de algumas dezenas de milhas.

O extremo de nosso continente Brasil fica em Touros, mais precisamente no Farol do Calcanhar, bem próximo ao quilômetro zero da BR 101, onde viajávamos em lombo de caminhão nos tempos do império juvenil em direção à Canoa Quebrada.

O local não guarda aura, não tem turistas, barraquinhas de souvenires e pouco se fala nele nas revistas de turismo da moda, mas venta muito. O farol de 62 metros de altura e alcance de mais de 30 mil milhas náuticas  está lá resguardado por uma placa imensa de propriedade da Marinha brasileira impondo aos náuticos e terrais sua grandeza e importância.

Cercado por mandacarus, carnaúbas e cajueiros ele é o marco que estabelece o cocuruto (e não o calcanhar) da nossa terra. Aqui há uma enseada margeada por dunas e falésias que formam um torrão avançado que, abrupto, despenca sobre uma ponta de pedregulhos enormes de várias toneladas que se banham, se moldam e se secam ao sabor da maré, ao longo dos séculos. É o nosso extremoz, sempre foi, antes das cartas náuticas, de Cabral e antes do GPS.

O restaurante e a cachaçaria são comandados pelo casal Edson e Lila Nobre (Crédito: DT)

Urca do Tubarão

Na estrada para São Miguel do Gostoso, paramos no Urca do Tubarão, um restaurante e cachaçaria comandado pelo casal Edson e Lila Nobre. Os anfitriões recebem os viajantes com a cachaça da Urca envelhecida ali mesmo em barris de Umburana. Como um trovador saído dos contos fantásticos do nordeste e das cordéis encantados do sertão, Nobre faz um pocket show e apresenta sua poesia lavrada na pedra e entre as areias das dunas potiguares. Edson não se envereda pelo regionalismo exótico e declama Augusto dos Anjos, o modernista paraibano incompreendido em sua época e hoje aceito por trazer à tona a loucura pós-moderna. O repentista em sua armadura de palavras emociona os viajantes e faz o que só é reservado aos grandes homens que possuem sentimento  à flor da pele: declama um poema de amor a amada, Lila.

Seguimos viagem e guardamos na memória essas coisas singulares. As casas de adobe e taquara à beira das estradas absorvem o calor de quase 35 graus na primavera do hemisfério sul.

Mas um vento agradável vem de noroeste em solavancos solapando as cabeleiras dos coqueiros. De repente, essa corrente de sopros pára e o calor volta a ferver. Em alguns segundos, ele retorna, com a mesma força e ímpeto, no entanto muda de direção, vem de nordeste parece que soprado pelos deuses de Atlântida.

Os ventos em solavancos solapam as cabeleiras dos coqueiros (Crédito: DT)

É essa intermitência, como as ondas que se espatifam na crista brasileira, que dão essa ideia de embate, esse duelo de forças titânicas para ver quem bagunça mais as cabeleiras dos coqueiros e das carnaúbas. É aqui, e não em outro lugar, que o Brasil e os ventos fazem a curva.

Touros, RN, 1º de novembro de 2018

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