por Paulo Atzingen (texto e fotos)

Para os amigos e leitores do Memórias Paulistanas

Desci a Queirós Aranha e depois a Topázio rumo ao Parque da Aclimação. Acabara de sair de uma consulta no otorrino e como ainda eram 10 horas uma brisa me soprou no ouvido que funcionava: “cuidou do corpo, cuide também da alma, vá lá“. E fui.

É uma pernada, mas ladeira abaixo, não desisti. Fazia isto três vezes por semana na adolescência. A rua Topázio e essas vielas adjacentes do bairro paulistano mantém intactos seus predinhos de três andares da década de 70 e se distinguem com suas pastilhas coloridas entre os colossos de cimento, ferro e vidro que têm se tornado as metrópoles. Esses predinhos do Paraíso e da Aclimação eram – nos meus 13-14 anos – uma febre nas construções da época. E assim, me concentrando na engenharia dos prédios da segunda metade do século passado, domei meu corpo cinquentenário com lembranças juvenis e fui descendo a Topázio. O mesmo traçado, as mesmas calçadas, o mesmo ônibus elétrico em seu silêncio inútil.

O parque se abre em um verde acanhado neste inverno paulistano. E mais abaixo, a Escola de Futebol.

Senhorzinhos e senhorinhas grisalhas contornam o lago metidos em moletons, poucos bíceps e poucas coxas expostas entre a névoa de julho.

Um desenho mais amigável informa que ali ainda funciona uma escola de futebol

Desço a estradinha de paralelepípedos e no meio do trajeto a placa oficial com a data: 1974.

Um desenho mais amigável informa que ali ainda funciona uma escola de futebol, e, embora em período de férias, um funcionário municipal monta guarda e espera o tempo passar atrás de um balcão.

Fotos em um quadro de alguns alunos e professores me atiçam a lembrança e recordo nomes de dois ou três. O ambiente próximo ao campo, e atrás do gol me trazem a mente os treinos, os jogos, as amizades e a juventude de jogadorzinho de futebol. As lembranças de um tempo carregado de sonhos juvenis e aquela fluorescência ainda vibrante da seleção canarinho tricampeã batucando em um coração jovem.

A tentativa de diálogo com o funcionário enfurnado em seu telefone celular foi em vão. Ele não conhecia ninguém na foto, não se recordava dos nomes dos professores e em resposta a pergunta dos documentos e arquivos das primeiras turmas de meninos jogadores, me disse:

“É férias. Volta em agosto”, e mergulhou em seu smartphone.

Sem poder dividir com alguém aquele momento de reencontro com um fiapo de minha adolescência – por que um funcionário ou qualquer outra pessoa desconhecida iria se interessar por uma história pessoal desprovida de glória e fama?”, pensei. Ter sido um bom goleiro e convocado para defender as cores da escola em torneios municipais a 45 anos atrás integram a tumba de tudo o que acostumamos chamar de passado.

O ambiente próximo ao campo, e atrás do gol me trazem a mente os treinos, os jogos, as amizades e a juventude de jogadorzinho de futebol.

Retorno pela estradinha de paralelepípedos, passo pela placa que indicara na década de 70 uma realização de governo, e avisto o lago margeado por uma pista onde correm senhorinhas e senhorzinhos grisalhos na luta quase insana de parar o tempo.

São Paulo, julho de 2019

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