Na fazenda com o pai da moça

Depois de tocar as três músicas de meu repertório de gaitista, a conversa tomou rumo sobre a quantidade de leite que Abraão , o motorista, trazia todo santo dia para a cidade e o número de vacas leiteiras que a Fazenda do pai de Joana possuía.

– Tem pouca vaca. Tem mais porco, disse-me o motorista e por pouco voltaríamos a falar de suínos se Joana não interrompesse para contar a sua história.

Aos dez anos sofrera um acidente na fazenda com um cavalo que ganhara de presente de aniversário. Bateu a cabeça no mourão do estábulo e ficou três dias em coma. Foram meses de fisioterapia e tratamentos mais profundos na Cleveland Clinic, em Ohio, uma fundação sem fins lucrativos e com excelência reputação em casos de lesão cerebral. Ficou paraplégica.

Isso não tirava a graça, jovialidade e beleza da moça. Tinha uma voz adocicada e um timbre de alegria ao falar. Um corpo miudinho que dava dó, as perninhas metálicas embutidas em uma calça de brim escuro e no peitoril dois melões já maduros prontos para a colheita. 20 aninhos. Aliás, como o mundo, seu hemisfério norte era muito mais desenvolvido que o hemisfério sul.  As minhas superficiais citações eram complementadas com frases bem feitas, pausas e respiração entre as palavras, calma e uma sabedoria própria de quem ficara enclausurada, ou em linguagem direta, chocando ovo para ser titia, estudando e assistindo sessão da tarde por uma década.

Da metade da viagem até a Fazenda Joana falou porque seu pai a nomeara Joana D’Arc:

“Meu pai é doutor em história pela UFMG, foi professor de história medieval antes de virar fazendeiro e é um entusiasta da Guerra dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra. Sabe tudo sobre o assunto. Como Joana D’Arc foi uma guerreira francesa importante nessa história, resolveu nomear-me assim. Talvez já soubesse do meu destino…”. Disse Joana com a naturalidade das fontes mineiras. Essa descrição sobre a origem de seu nome magnetizou-me por uns instantes na cabine do caminhão. A única referência que tinha até então de Joana D’Arc  é que  ela havia sido queimada viva pelos ingleses acusada de heresia.

Chegamos à fazenda ainda pela manhã. Na porteira via que entrava em um território bem administrado. Pastos bem cuidados, gado gordo tratado à ração, e uma casa sede em estilo vitoriano toda avarandada com dois andares e janelas azuis abertas para o campo. O caminhão leiteiro deixou-nos à porta e seguiu.

Fui apresentado ao pai de Joana, Jacques Romée. Homem nos seus 60 anos, viúvo, trajado em camisa de linho e calça em jeans próprias dos fazendeiros texanos. Com um charuto cubano à boca educadamente pediu que eu sentasse, antes disse-me palavras amenas como seja bem-vindo, ou a casa é sua, essas bobagens que se fala por mera conveniência, mesmo a um estranho. Jacques realmente era um homem culto e adorava história, mas me deixou à vontade para falar daquilo que eu ia me especializar: porcos.

Muni-me dos melhores verbos decorados na escola para falar das técnicas que aprendera recentemente. Na verdade não sabia absolutamente nada sobre suinocultura, ou seja lá o que fosse sobre criação desses animais. Dois ou três procedimentos cirúrgicos, como cortar o cordão umbilical de um porquinho, aplicar vacina subcutânea na coxinha gorda dos bacorinhos, três ou quatro palavras científicas e estava ali, a fraude em pessoa tentando ser o que não era. Mero estudante, aspirante a qualquer coisa. Talvez veterinário, talvez zootecnista, talvez tratador e limpador de baias sujas de estrume e placentas, talvez nada. Passara a me interessar mesmo por Joana, mesmo que fosse, somente, por seu hemisfério norte.

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