Voltei para o banco rústico do vagão inglês mas a rusticidade de jovem estudante não ligava para detalhes, conforto ou ornamentos. A energia da adolescência era como um vulcão de ideias, frases, esperanças e músicas adquiridas até então. Meu espirito era a água da caldeira do trem que injetava uma cavalaria de força na máquina de sangue e músculos de jovem e o som das rodas da máquina de aço era um hino de libertação, uma louvação. Me vem o louvor de Gil:
Vou fazer a louvação, louvação, louvação do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado. Louvando o que bem merece deixando o que é ruim de lado. Louvando o que bem merece deixando o que é ruim de lado.
Eu avançava em terras baianas cantarolando versos pre-tropicalistas montado em um trem de ferro hermafrodito, misto de cargas e passageiros e meus 18 anos de história eram como uma vida inteira. Achava que sabia tudo, essas coisas características da idade. Me detinha apenas no que podia me levar a algo novo e no que pudesse me colocar em perigo. As janelas do vagão entregavam a idade do velho trem. Elas tinham um controle manual por gravidade. As três opções de altura do vidro (alto, médio e baixo) eram reguladas por cavidades na madeira no caixilho. Se não enfiássemos corretamente o engate de ferro no buraco devido a janela caia como uma guilhotina. Os bancos eram revestidos por uma napa tão ruim e encardida que não precisava o bilhete ter o carimbo: 2ª Classe.
O trem saiu de Brumado exatamente duas horas depois de uma série de engates e desengates de carros que testaram a paciência dos passageiros. Longa espera de três caminhões de boi do maior fazendeiro daquelas paragens de Rio de Contas.
“É o doutor Fogoió:, disse o meu amigo de viagem, Hermes, o criador de bodes de Contendas do Sincorá . “Ele tem a metade das vacas de toda a Bahia”.
Quando o trem deu aquele apito longo de partida me veio um misto de emoção e vitória. Acompanhado do apito vinha da locomotiva a vapor uma mistura de cheiro de terra sertaneja com fumaça e bosta de vaca.
Sim, meus pulmões se enchiam de um ar morno, agora mutante com o movimento do trem e a dança do ar e essas regras imutáveis da Física. A alegria de viajante era interrompida de minuto a minuto pelo aroma. À medida que o trem ganhava velocidade ao cheiro de fumaça vindo da fornalha se unia um cheiro de esterco. O odor das trinta vacas embarcadas em Brumado inundava o vagão de passageiros e era preciso tapar as narinas ou buscar uma posição na janela-guilhotina. Chegaria em Salvador cheirando a esterco.
Estava naqueles vagões de trem em que os bancos viram espetacularmente para trás pensados para os tempos dos diálogos e das prosas frente a frente. O passageiro do lado, o Hermes, concordou e passamos a viajar de costas. À nossa frente, ganhávamos um estranho senhor com óculos de fundo de garrafa e metido em uma camisa de manga comprida arregaçada até os cotovelos. Ele puxou assunto ao ver minha cara de paulista deslumbrado:
– “É sempre assim. A companhia coloca os bois na frente”, disse e sem esperar resposta emendou. “Até Salvador era essa linha. No início, por volta de 1970 tinha seis trens por semana. Três indo e três voltando. Tudo dividido: carga era carga. Passageiro era passageiro. Depois criaram o trem misto, com carga e boi. No fim, virou essa fuleiragem”, disse aquilo naquele dialeto essencial de sertanejo e com a franqueza de pessoas que se conhece a tempos. Por instantes minha arrogância juvenil ficava de joelhos e se punha a aprender. O cheiro de estrume viajava junto.
Tinha minhas leituras de aulas de história e sabia que o Brasil trocara o transporte ferroviário pelo rodoviário na época de Juscelino Kubitschek. Quando falei o nome do ex-presidente ao homem de camisas arregaçadas até o cotovelo ele se animou e desfiou um rosário de feitos e fatos história adentro, seja o sacrifício dos trilhos, das locomotivas, dos vagões, seja o interesse da indústria automotiva, o trabalho dos cartéis, a política e a corrupção.
“Juscelino ampliou as rodovias porque queria atrair empresas internacionais do ramo de automóvel. Ele conseguiu isso e no rastro vieram empresas de autopeças, lubrificantes, combustível e por aí a fora. Isso tudo criou mais empregos, mais dinheiro circulando”, disse o homem à nossa frente. “Mas isso não justifica acabar com as pessoas”, lamentava. E não era um lamento por lamentar, era um lamento forjado em fatos.
Não era por sorte que Dilson – este era seu nome – conhecia o passado do país e sabia como as coisas funcionavam. Lecionava História em Belo Horizonte e ia visitar parentes em Contendas.
Dilson enumerou as vantagens do trem. “A grande maioria das cargas do Brasil são feitas por caminhão. Mas a capacidade dos trens são três vezes superior, por cada vagão”…
Concordei: os três caminhões boiadeiros em Brumado foram engolidos por apenas um vagão do trem.
A aula de história ferroviária foi interrompida pelo fiscal que pedia os bilhetes. A próxima parada era Contendas do Sincorá.
O professor continuou sua aula enquanto a Bahia corria lá fora “Os trens gastam 30% menos combustível e são mais amigos do ambiente”, enumerou. Entusiasmado com o solo fértil que havia caído suas palavras, lembrou que a China, o Canadá, os Estados Unidos e até a Argentina eram exemplos de países que usavam o trem como eles deviam ser usados. “O transporte de passageiros nesses países tem mais ou a mesma importância que o transporte de cargas, nunca o contrário”, disse o companheiro de viagem.
Contendas do Sincorá estava chegando. Uma cidadezinha encravada no agreste baiano com casas sem reboco, adorno ou jardins frontais. Pessoas saiam à janela e acenavam como uma saudação ao trem que chegava trazendo cargas, bois e também pessoas.
Antes que o professor Dilson se levantasse para pegar sua bagagem perguntei:
Esse trem de passageiro vai acabar?
Ele pela primeira vez me olhou com aquelas bolas fundas de lente de telescópio e respondeu.
“Gente aqui não faz diferença, não dá lucro. Em terra que há muito gado o boi manda”, pegou sua mala no bagageiro e desceu.
Essa foi a terceira lição.
O trem ficou apenas alguns minutos em Contendas. Deu seu apito de partida. À medida que avançava sobre as lavouras de milho e cacau do sertão baiano o cheiro de adubo voltava a entrar pelas janelas. Restava-me cantarolar meu hino de libertação juvenil. Meu espirito era a água da caldeira do trem que injetava uma cavalaria de força na máquina de sangue e músculos de jovem e o som das rodas da máquina de aço era minha música interior:
Vou fazer a louvação, louvação, louvação do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado. Louvando o que bem merece deixando o que é ruim de lado. Louvando o que bem merece deixando o que é ruim de lado.