Aldeia

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Pintar minha aldeia antes do mundo lá fora
sempre quis fazê-lo,
porém, nunca tive aldeia.
Fui para a vida um passageiro
que tem no efêmero a sua veia.

Veja a poeta Florbela Espanca,
que cantou a doçura do seu Alentejo.
Tinha ela a matéria prima à mão,
um rio, uma vinha e o seu vilarejo
tão próxima, tão junta
fincada em sua apoteose.
Via um mundo alvorecendo
na superfície
e no fim
acabou sendo
a suicida da overdose.

Não consigo pintar qualquer aldeia
por sua quantidade de asfalto,
fios elétricos e cimento.
Sei que há vida lá, complexas, misturadas, apressadas.
Buscam amor, trabalho e alimento,
mas mora uma maldade no âmago
de quem manda lá
(políticos, tecnocratas, bispos)
com sua manipulação
que chega a noventa por cento.
Então guardo minhas latas de tinta
avenidas translúcidas e pontes de luz
por esquecimento.

Veja Gabriel Garcia Márquez,
o Nobel de Literatura,
que irradiou sua Colômbia,
contando para nós sua história,
suas cores, sua cultura,
para gente pobre, rica, descrente ou pura, mostrou sua aldeia inventada.

Macondo está suspensa no ar
esquecida na biblioteca,
soterrada por algoritmos
na internet do nada.

Escrever sobre o meu mundo
e oferecer a pessoas rasas
o que tenho de profundo
passa a ser ação utópica
coisa que está fora do tempo
um Dom Quixote que luta
com cavaleiros errantes
contra os moinhos de vento.

Veja o poeta da Veneza brasileira
que evocou Recife e fez dela estandarte
quem é que se lembra?
Bandeira, grande em sua labuta
queria ir pra Passargada
lá era amigo do Rei
tomaria banhos de mar
e namoraria uma prostituta.

Pintar minha aldeia antes do mundo lá fora
sempre quis fazê-lo,
porém, nunca tive aldeia.
Fui para a vida um passageiro
que tem no efêmero a sua veia.

PAULO ATZINGEN
SP, 31 de janeiro de 2026

 

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