A faixa de areia neste lado da ilha terá uns quinhentos e vinte e seis metros de comprimento. A largura será impossível precisar porque o mar irá e voltará indefinidamente obedecendo a pulsação do planeta.
À esta faixa de areia se erguerá várias fileiras de coqueiros e suas cabeleiras verdes e seus corpos esbeltos dançarão ao sabor de um vento aloprado que virá do alto, da frente e de todos os lados.
No primeiro dia a ilha parecerá nascida das futuras histórias fantásticas de ficção que ouviremos dos nossos pais quando esses ainda possuírem memória. Tempo em que os gatos usarão botas, os gigantes chamarão Gulliver e a palavra duende não será confundida com doente. Tempo em que as pessoas não andarão corcundas olhando para o próprio mundo digital.
Quando os navegadores chegarem no segundo dia e antes mesmo de colocarem suas botas aqui, darão um mergulho nessa água transparente para só depois, irem descobrir o resto do Novo Mundo.
As lanchas que chegarão í ilha no terceiro dia virão apinhadas de índios modernos equipados com telefones que tiram fotos. Eles absorverão tudo o que lhes remeta ao passado: ar puro em movimento, cores brancas da areia, cores verdes dos coqueiros e o extravagante azul turquesa do mar, e com um detalhe: “de graça”.
Arrancarão da água a sensação tátil do banho e do sal a preservação da carne sob o sol do trópico.
Quando as lanchas dos índios modernos tocarem a areia reconectarão o fluxo da história que terá início quando os reis de Espanha e Portugal sentirem inveja um do outro, ou ciúme, ou ódio, não sei ao certo.
O que sei é que no quarto dia ao caminharem pela praia esses índios modernos catarão estrelas do mar e corais. As estrelas terão o formato das bolas de hélio que estão sendo espalhadas no céu de noite. Essas estrelas da areia projetarão o design universal em uma transmissão via satélite imperceptível, inexplicável, quântica.
São menores porque são criaturas espelhadas no design original, mas refletem a grandeza com suas cinco mil pontas.
Já os corais têm forma espiralada que catapulta os índios modernos í inevitável rotação do planeta, que, por sua vez, regulará o fluxo e o tempo das marés. Ao colocarem o ouvido nesses corais escutarão o mar longínquo lá longe, no início dos milênios.
Quando os índios mais civilizados descerem í ilha, no quinto dia, trarão consigo uma carga de civilização neutra, nem boa, nem ruim, nem rica, nem pobre ““ uma civilização que se existisse, – como existirá ““ ou deixasse de existir ““ como não deixará ““ pouco impactaria na emersão da ilha. As toneladas de lixo inorgânico que os índios mais civilizados deixarão por onde passarem serão transformados em pó com a fotossíntese do tempo. Tanto faz se eles sujarem, tanto faz se eles pecarem, tanto faz se eles subornarem, roubarem ou matarem, a ilha emergirá.Â
Mesmo que os índios mais que civilizados construam casas, pontes, aeroportos, fábricas, linhas de trem, rodovias, prédios, shoppings, hidrelétricas, usinas atômicas e naves espaciais, mesmo que dentre os índios mais civilizados, no sexto dia, venham os índios ultra-civilizados da civilização da grande ilha do norte, a ilha emergirá.
A ilha emergirá no sétimo dia e junto com ela uma barreira de corais, uma fileira de coqueiros e um mundo novo todo para ser refeito e pessoas novas todas prontas para serem refeitas emergirão.Â
A ilha emergirá.