Comemorar aniversário
no último mês do ano
seja qual for a maré
ou as fases da lua
é chegar a uma festa
muito maior que a sua.
Vejam essas coincidências
irrefutáveis:
no dia em que nasci
o sol fica mais tempo no céu
e olhando pro alto
incontáveis
nuvens e o ar
formam
em precipício
a imensidão.
vejam bem
isso:
aniversario no
solstício
de verão!
É uma matemática
celeste
de esferas
que refletem
simultaneamente
nos trópicos
de Capricórnio
e de Câncer
mas quem
nasce dia 21
seja em qualquer horário
é considerado do signo
de sagitário.
Nesse dia mais
longo
do ano
as sementes são plantadas
no hemisfério sul
com mais fé
existe uma esperança
no coração
do agricultor
que vê o céu azul
e espera sua colheita
pois as chuvas
maiores
molham a estação
como um gesto
de amor.
E para não passar em branco
essa data natalícia
sem que eu fosse notado
uma conspiração cósmica
com uma precisão
cirúrgica
acertou em cheio
antecipando meu parto
para quatro dias antes
í chegada do Menino
que dividiu a História
ao meio.
Esse 21 de dezembro
vem montado em promessas
que tardam mas não falham
na minha prateleira de esperas:
que eu perca peso e
diminua o açúcar
da minha corrente sanguínia
essas coisas da vida
Sexagenária.
Padre Juca nasceu em 19 de agosto de 1895! Sim! Temos um tio que nasceu no Século XIX!
Escrever sobre o Padre Juca é atravessar um século e ir lá atrás, em 19 de agosto de 1885, data de seu nascimento em Pirassununga (SP).
Padre Juca foi o segundo filho da extensa descendência deixada na terra por Francisco von Atzingen e Sophia Levy, e sua história resiste mesmo diante da implacável poeira do tempo. Sim! Temos um tio que nasceu no século XIX!
Com o nome de batismo José von Atzingen, padre Juca foi assassinado com 15 facadas em seu quarto na Santa Casa de Misericórdia, em Cachoeira Paulista, em 20 de dezembro de 1957. Este fato bárbaro interrompeu um ciclo de bondade, renúncia e exemplos muito maiores e significativos que o próprio latrocínio. Sua obra foi maior e é isso o que importa. Neste espaço relatarei três episódios que mostram a natureza de bondade deste homem e a extirpe de cristal a que ele pertencia: a reza diante do edifício Itália em São Paulo, durante sua construção em 1956; o trem que não partiu sem ele para Queluz (SP); e o circo pobre que foi abençoado por sua intercessão, em Piquete (SP).
Livro de Tia Margarida e docs do TiãoÂ
A árvore genealógica da família semeada por Margarida von Atzingen em livro foi uma tentativa heróica de minha tiazinha da avenida 17, em Rio Claro, de congelar no tempo a passagem das nossas gerações. Admiro-a por isso pois conseguiu, antes da era digital, reunir dados dos nossos ancestrais. Nele encontro trechos da vida de meu tio José von Atzingen que após viuvar em 4 de setembro de 1927, tornou-se padre, o Padre Juca.
Os documentos guardados com zelo por meu tio Sebastião sobre o Padre Juca também me inspiraram. Esses documentos, se enviados ao Vaticano para análise, poderiam elevá-lo í condição de santo, sem exageros.
Dentre a miríade de atos não simbólicos, mas concretos de meu tio Padre Juca, que deve hoje estar organizando uma paróquia em alguma constelação do Universo e dando a si mesmo uma atividade prática para fazer, destaco relatos de sua misericórdia diária em favor dos pobres, miseráveis e desprovidos de compaixão. Padre Juca provia-os de tudo isso.
Embora tenha sido ordenado vigário por vários bispos no interior do Estado de São Paulo, o que salta para a história não são seus sermões em templos adornados por vitrais vindos da Itália, ou altares em ouro de alto quilate, o que salta para a história é seu trabalho no campo missionário, levando a palavra e o exemplo a quem dela precisasse. De posse sua, apenas a batina, dois sapatos e algumas peças de roupa.
Início da Ordenação
Após um período de 5 anos como seminarista (maio de 1928 a novembro de 1932) Padre Juca iniciou sua ordenação na Catedral de Taubaté como padre auxiliar, ali ficando por um ano. Em 1933 foi convidado e nomeado a vigário de Campos do Jordão, ficando ali de 1933 a 1938.
“Fiz nessa Paróquia o que pude, a bem das almas, e me esforcei para as obras da Matriz de Abernéssia, que foi mais tarde concluída”, escreve em sua autobiografia no livro de Margarida.
Ele mesmo descreve o enterro de sua mãe, nossa avó, Sophia:
“Era Vigário de Guará, quando em 1938, a 9 de agosto, faleceu a nossa querida mamãe, da qual eu mesmo, chorando, fiz o enterro e dei a absolvição solene até o túmulo “, relata.
Diante do futuro Edifício Itália
Veio algumas vezes para São Paulo, capital, e o tio João, em uma dessas vezes, foi recebê-lo, na antiga rodoviária Júlio Prestes. Assim que desembarcou, conta tio João, ele disse da vontade em ir visitar um amigo vigário na avenida da Consolação.
“Eram 10 horas da manhã – conta João – e achei que o melhor era irmos a pé, conversando pela Duque de Caxias e Avenida Ipiranga. Paramos na esquina da Avenida São Luiz e Ipiranga, onde existia um grande tapume com a placa dos construtores indicando que ali seria erguido o gigantesco Edifício Itália.
“Padre Juca perguntou-me que obra era aquela e eu informei que naquele local estavam erguendo o mais alto edifício da América do Sul. Ele parou em frente a uma abertura do tapume e olhou lá para dentro. Seus olhos deram com uma imensa cratera de quase 20 metros de profundidade, onde, enterrados na lama até os joelhos, trabalhavam dezenas de operários, seminus, retirando barro”.
“É, disse-me Padre Juca, falando consigo mesmo, será um grande edifício, mas sabe Deus í custa de quanto sacrifício, de quantos acidentes, de quanto esforço desses pobres coitados”.
E virando-se para o tio João, falou:
“Vamos pedir a Nosso Senhor que tudo termine bem, que ninguém se machuque e que esses operários possam ver com alegria esta obra terminada.
“Logo a seguir ajoelhou-se na calçada enlameada pedindo-me que fizesse o mesmo. Rezamos juntos uma Ave-Maria e um Padre Nosso e, de onde estava, Padre Juca lançou uma benção sobre os trabalhadores do outro lado do tapume.
“Até hoje, quando me lembro da espontaneidade e bondade daquele gesto, meus olhos enchem-se de lagrimas”, relata tio João. Este texto foi publicado por sua prima, Pérola von Atzingen, no jornal Diário de Rio Claro na edição de 17/5/1989.
Essas vozes que escuto ao longe
misturadas ao ladrar de cães
juntam-se ao meu lamentar criativo
montanhas de palavras sem sentido
pedras, paus, pombas, pães.
Com tudo isso penso o que faria
se não tivesse o verbo como sócio
Minha mansão não sei como construiria
tendo o sonho, o plano e o projeto
sem minha materia-prima essencial
para as paredes, o chão e o teto.
Ouço o caminhão acelerar na rua
uma bomba cair na Ucrânia e um grito
Neste aquário de dor e de ar
meus sentidos se enchem de um mar
longínquo, humano, infinito.
Dessa sintonia com as coisas do mundo
projeto para dentro meu contar mais profundo Visito meus campos de trigo no Colorado
minhas estradas de ferro na China
meus arranha-céus em um país europeu
Além de todo o acervo ambiental e cultural que a Serra das Andorinhas oferece, a região também foi palco da famosa Guerrilha do Araguaia, que começou em 1972 e terminou em 1975.
por Noé von Atzingen*
Em nossas primeiras excursões í região em 1986/1987, encontramos os moradores com muito medo e desconfiança de qualquer estranho que por ali passava. Nos primeiros dias, alguns nem abriam suas portas para nós. Ouvimos deles que o exército ainda tinha informantes por ali e quem conversasse com estranhos era denunciado como suspeito.
Não era para menos esse medo todo! A grande maioria dos moradores sofreu muito com a repressão do exército: tiveram que ficar confinados í Vila de Santa Cruz. Só podiam ir í s suas roças ou pescar se fossem acompanhados pelos soldados. Também não podiam sair a noite para caçar.
Transcrevo a seguir parte do depoimento que colhemos com a Madalena, uma moradora da vila de Santa Cruz:
Qualquer morador que desse um copo d’água ou um prato de comida a um guerrilheiro, era severamente punido e muitas vezes levado preso para Xambioá, onde era jogado no buracão e aí permanecia por dias ou meses”
Muitos tiveram suas roças queimadas e casas incendiadas, com todos os seus pertences, eu ( Madalena) , na época com 10 anos de idade, junto com seus pais e irmãos fomos arrancados de casa só com a roupa do corpo e presenciamos nosso barraco ser queimado pelo exército. Tivemos que se arranchar na casa de conhecidos na Vila de Santa Cruz até o fim da guerra”.
” Teve o Hermógenes da Cardinha que foi amarrado no helicóptero e levantaram voo com ele dependurado em uma corda. O Hermógenes entre outros ferimentos, teve sua bacia fraturada. Além desses, ainda me lembro do Picida que foi muito torturado eo Silvano, irmão do Picida, que morreu devido í s torturas. O Izidorão que você conheceu, foi amarrado sobre um formigueiro e foi obrigado a comer limão com casca e tudo. O germano foi obrigado a comer urubu e ainda teve seus dentes quebrados’, relata
Madalena, moradora de Santa Cruz (Arquivo Pessoal)
O exército sediado em Marabá, abriu as estradas OPI, Op2 e Op3 que deram acesso í Serra das Andorinhas, onde os guerrilheiros, chamados também de terroristas pelo exército, lá viviam já há alguns anos. Havia um guerrilheiro por nome Amauri, que tinha uma pequena farmácia em Santa Cruz e era muito querido da população local.
O contingente de 69 guerrilheiros, a maioria estudantes do Sudeste do Brasil, mal alimentados e mal armados, deram muito trabalho ao exército nacional, que com mais de 10 mil soldados bem armados, bem alimentados, com helicópteros etc e mesmo assim levou 4 anos para por fim í guerrilha!
Os guerrilheiros tinham uma base, na região da Serra, na margem do Ribeirão Gameleira. Essa base era comandada pelo famoso Oswaldão. Faziam parte dessa base, 23 guerrilheiros, entre eles o ex deputado José Genoíno, João Amazonas (ex presidente do PCdoB) e a famosa Dina.
Até os índios Surui, que vivem ali próximo, foram induzidos a servir de guia, para encontrar os guerrilheiros.
Alguns moradores da Serra como o Beca e o Pedro Galego, mesmo contra a vontade, também serviram de guias.
Para quem gosta da história viva, a Serra das Andorinhas é um prato cheio!
No livro do Gorayeb, no capítulo “Importância Histórica da Serra das Andorinhas” Maria Virgínia Bastos de Mattos e Antonio Carlos Bastos de Mattos afirmam que a Guerrilha do Araguaia provocou a maior movimentação de tropas brasileiras deste a Segunda Guerra Mundial, e sem dúvida a maior realizada no interior do Brasil, em todos os tempos. Avalia-se que foram mobilizados entre 10 e 20 mil soldados. Para quem gosta da história viva, a Serra das Andorinhas é um prato cheio! Pois, além das deliciosas histórias sobre a vida e cultura local, ainda está muito vivo na memória de muitos moradores esse interessante e mal conhecido capítulo da história brasileira.
BIBLIOGRAFIA
GORAYEB, P.S.de S. Parque Martirios/
Andorinhas : Conhecimento, História e Preservação. EDUFPA 2008
Alguns viajantes escreveram verdadeiras odes aos rios Tocantins e Araguaia.
Como grande admirador destes gigantes da natureza não poderia deixar de mostrar um pouco das espetaculares descrições feitas sobre estes rios.
por Noé von Atzingen – Novembro de 2023
Comecemos pois com Leite Moraes descrevendo inicialmente sua passagem pela Cachoeira Grande no Rio Araguaia e mais adiante, pela Cachoeira de Itaboca no Rio Tocantins. Leite Moraes passou pela cachoeira de Santa Izabel no Rio Araguaia em dezembro de 1881.
É impressionante o seu relato! Mesmo para quem já participou desta aventura, como meus queridos amigos, Madalena e Getúlio. Mas vamos ao relato de Leite Moraes:
“Estamos ouvindo o marulho fremente e estrondoso da notável Cachoeira Grande, tão importante como a de Itaboca.
É meio-dia. Os remeiros preparam-se, e, a uma voz do piloto, descem os remos precipitadamente; agora os proeiros já gritam, animando os remeiros e estes respondem. O piloto, de pé, com os braços apoiados no leme e com os olhos fitos ao longe, dirige o batel dos nossos destinos…
E o bote o compreende; não corta as águas; desliza-se; não caminha: voa!’ Eis-nos precipitando-nos no canal, despenhadeiro ou cascata…o que vemos? Milhares e milhares de pedras imensas, isoladas pelas águas revoltas…
O bote toma a velocidade vertiginosa das águas … Abriam-se diante do nosso bote novas gargantas que nos engoliam… o piloto ora em pé, ora deitado, e í s vezes dependurado no leme, joga o bote í sua vontade! Os remeiros cobertos pelas ondas remam e gritam como uns heróis ou uns loucos!
E um espetáculo indescritível! Os perigos assaltam o navegante de todos os lados, ou o rebojo, ou a pedra, e quantas vezes, para desviar o bote do rebojo, atira-se-o í pedra, e para desvia-lo desta, se o atira no rebojo! Nessa corrida vertiginosa, o Rio Vermelho, escapa do canal e oscila nas águas mortas de um saranzal, em torno de um rochedo; nossa respiração ficou suspensa… e todos í margem do precipício, fazem um esforço supremo e desesperador; o bote volta ao canal e precipita-se resvalando uma pedra enorne…E assim, exaustos de forças, pelas sensações despertadas pela aproximação da vida ao seu último termo, cortamos aquele rio, misto horrendo de águas, pedras e árvores. Após 45 minutos, vencemos a notável cachoeira!”
Confira algumas imagens:
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Transcrevo a seguir a parte em que nosso viajante chega í confluência dos rios Araguaia e Tocantins:
“A 4 de janeiro ( de 1882) encontrou-nos em marcha. Amanhecemos com o São João de vista; já estamos em frente da primeira boca do famoso Tocantins, que vem absorver o Araguaia.
Painel esplêndido! A natureza como que sorri ao encontro dos dois grandes rios; a vista estende -se e por toda a parte belezas e encantos a extasiam; o espaço como que se abre para dar-lhes passagem e os horizontes alargam-se prestando-lhes homenagem! As nove horas da manhã o nosso bote descansa no porto do secular Presidio de São João do Araguaia. Desembarcados e fomos visitar a velha povoação paraense.” Mais adiante, em seu livro ” Apontamentos de Viagem” descreve sua passagem pela famosa cachoeira de Itaboca ( atualmente submersa pela Hidrelétrica de Tucurui):
‘ E eis que a corredeira se transforma em uma horrorosa cachoeira, na qual nos precipitados… entramos pelo caminho do improviso, esbarrando face a face com a morte de todos os lados. Não há palavras que descrevam as proporções do perigo que estamos afrontando! Os rebojos, uns sobre os outros, cruzando os raios das respectivas circunferências, naquele tumultuar incessante, abrindo sucessivas concavidades, surgem em torno do ( barco) Rio Vermelho, que trás a reboque a nossa igarité…
Um monstruoso rebojo, faz o bote voltar pela mesma esteira. Ao mesmo tempo, outro rebojo envolve nossa igarité, traga-a, e, arrebentando a corrente de ferro, a leva consigo! Houve um grito de horror e pesar soltado pela tripulação…
As sete e meia da noite, bote e igarité, remeiros e tripulação, saos e salvos, chegam í praia… resistimos í vida! Foram três horas de lutas que valeram uma existência inteira… foram três horas em cujos instantes todos ouviram soar o momento extremo da vida! E eu, que agora tomo esses apontamentos, duvido da minha própria existência! Ah! Tocantins, sois um mistério tenebroso! Só Deus pode sulcar as tuas aguas… os homens que as sulcam são… uns LOUCOS!Â
BIBLIOGRAFIA
J.A.LEITE MORAES, Apontamentos de
Viagem , Penguin & Cia das Letras, 201 1
Esta imagem é um sopro
congelado da história familiar
os anos – mil novecentos e trinta
Tempo em que a fotografia
era um evento tão celebrado
que se colocava a melhor roupa
se perfumava
para ser fotografado.
É uma foto com os meus ancestrais
tempo do Estado Novo
de Getúlio Vargas e do café paulista
Como sei disso?
As vestes de época os ares contritos
E a matemática da idade
de quem identifico
Nessa imagem antiga
e de baixa definição
os pixels se pulverizam
sugados pelo passar do tempo
somam -se a isso
a embotada memória
dos rostos, gestos e
olhares
do que se perdeu no vento.
No tempo da terceira República
brasileira
quem será o homenzinho í esquerda
com cara de medo
será o caçula?
quem será que é?
minha irmã Elizabeth
revela:
É o nosso pai Noé.
O olhar severo dos meus avós
e o tom escuro de suas roupas
acentuados pela figura
do padre ao centro
com sua batina escura.
As vestes dos jovens
são brancas
Tia Cida, Abel e Margarida
e uma menininha ao canto
será Maria?
tão pura.
Entre meus ancestrais
que viveram espremidos
entre duas guerras mundiais
tivemos também
alguns (ou vários) homens de fé
esse padrinho
ao centro da foto
alguém me cutuca
(pra não esquecer)
é o padre Juca.
Essa imagem dos avós
Francisco e Sofia
diante da casa antiga
em Pirassununga, no interior
antes que vire miragem
vai ser lembrada
por nós
sempre
com amor.
Henri Coundreau e sua esposa Octavie Coundreau no vapor General Jardim, indo de Belém a Tucuruí (Reprodução)
Memórias dos Martírios / Andorinhas – Desde o descobrimento do Brasil até por volta de 1.600, poucas pessoas se aventuraram pelos rios Araguaia e Tocantins.
por Noé von Atzingen*
A partir de 1613 alguns aventureiros começam a penetrar nos sertões. As informações estão contidas basicamente na obra Grandes Expedições í Amazônia Brasileira de autoria de João Meirelles Filho. Entre os viajantes que estiveram na região até o final de 1800, há alguns bem famosos como Daniel de Ia Touche, Padre António Vieira, Cunha Matos, Conde de Castelnau, Henri Battes, Couto de Magalhães, Carlos Leitão e o Casal Coudreau. Alguns deles deixaram verdadeiras joias na descrição da região: Coudreau, Couto de Magalhães e Leite Moraes cujo livro Apontamentos de Viagem é pouco conhecido. Interessante lembrar que Leite Moraes é avô do escritor Mário de Andrade.
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Livros documentam inúmeras viagens ao Araguaia e ao Tocantins
Livros documentam inúmeras viagens ao Araguaia e ao Tocantins
Livros documentam inúmeras viagens ao Araguaia e ao Tocantins
Apresentamos a seguir a lista dos viajantes na região de 1500 a 1900:
# 1590 Antônio de Macedo e Domingos Luiz Grou ( exploradores portugueses), descem o rio Araguaia.
# 1610 ou 1613 Daniel de Ia Touche (nobre francês) sobe o Tocantins, provavelmente até a foz com o rio Araguaia.
# 1613/161 5 André Fernandes ( bandeirante paulista) chefia a bandeira do Paraupava, desce o Araguaia e sobe o Rio Tocantins. # 1 652 Antônio Vieira (padre português) sobe o Tocantins até a Cachoeira de Itaboca, pouco acima de onde hoje está Tucurui. # 1652 Francisco Veloso (padre) sobe o Tocantins até a foz do rio Itacaiúnas. # 1656 João de Sotto Mayor (padre português) viaja pelos rios Tocantins e Araguaia.
# 1658 Tomé Ribeiro (padre portugues) percorre o Tocantins e Araguaia e relata encontro com os Karaja/Xambioá.
# 1669 Gonçalo Paes e Manoel Brandão ( militares portugueses) sobem o Tocantins até o encontro com o Araguaia.
# 1673 e 1682 Manoel de Campos Bicudo e Bartolomeu Bueno da Silva “o Anhanguera” (sertanistas paulistas ) visitaram os Martírios na procura de ouro.
# 1674 Antonio Velloso Tavares (padre portugues) sobe o Rio Tocantins.
# 1718 e 1723 Antonio Pires de Campos ( bandeirante paulista) viaja pelo Araguaia e Tocantins.
# 1719 Berredo ( português, governador do Grão Pará) sobe o Rio Tocantins até a região onde hoje fica a cidade de Palmas.
# 1721 Domingos Portilho( sertanista brasileiro) sobe o Tocantins e o Araguaia. # 1721 Manuel da Mota ( padre português ) explora os rios Tocantins, Itacaiúnas e Parauapebas.
# 1739 Tomaz de Souza Villa Real( Militar português) Realiza viagem pelo Tocantins até o Rio vermelho( Goiás)
# 1759 José de Morais ( religioso português) percorre o Rio Tocantins.
# 1763 João Manoel de Melo Bandeira, navega pelo Araguaia, até a ilha do Bananal.
# 1769 Luiz Pinto de Souza Coutin o (governador de Mato Grosso) nave a pelo Tocantins de Belém a Vila Bela de Goiás. # 1774 Antonio Luiz Tavares Lisboa ( militar português ) desce o Rio Tocantins. # 1789 João Vasco Manoel de Braum. ( militar português) viaja de Belém a Vila Bela, pelos rios Tocantins e Araguaia.
# 1792 Thomaz de Souza Villa Real. Viaja pelos rios Tocantins, Araguaia e Vermelho.
# 1815 Francisco de Paula Ribeiro ( militar brasileiro) explora a região de fronteira entre o Pará, Maranhão e Goiás.
# 1820 Antonio Bernardino Pereira Lago e B.F. Albuquerque Lima (cartógrafos brasileiros) realizam a cartografia dos rios Araguaia e Tocantins.
# 1820 Francisco Lopes ( padre) desce o Rio Araguaia até a Serra dos Martírios.
# 1824 Raymundo José da Cunha Mattos ( militar brasileiro) desce o rio Araguaia. # 1828 William John Burchell ( botânico inglês) percorre o Rio Tocantins.
# 1834 Thomaz de Souza Villa Real ( militar) Ataca os Xerente no alto Tocantins entre Rio Sono e Dianópolis.
# 1844 Conde de Castelnau ( natutalista francês) desce o rio Araguaia e sobe o rio Tocantins.
# 1846 Henry Battes ( entomólogo) sobe o Rio Tocantins até a Cachoeira de Itaboca.
# 1847 Antonio Rufino Teotônio Segurado ( brasileiro) desce o rio Araguaia de Goiás a Belém.
# 1848 a 1852 Rafael Tuggia ( padre italiano) tenta evangelizar os Krahô os Apinaje e Xerente na região de Pedro Afonso.
# 1849 João Roberto Ayres Carneiro ( militar brasileiro) coordena expedição colonizadora e exploradora ao Rio Tocantins.
# 1857 Kupfer ( antropólogo alemão) estuda os Kayapó.
# 1858-1859 Vicente Ferreira Gomes ( explorador brasileiro) viaja pelo Rio Tocantins do Goiás a Belém.
# 1861 Couto de Magalhães ( político, empresário, escritor, sertanista) realiza sua primeira viagem a vapor pelo Rio Araguaia e Tocantins.
#1862 Francisco Parahybuna de Mattos ( militar brasileiro) faz levantamentos geográficos no Rio Tocantins.
# 1864 Couto de Magalhães naufraga no Rio Tocantins, no canal do inferno, ao tentar subir de vapor a Cachoeira de Itaboca.
# 1882 J.A.Leite Moraes (governador de Goiás) Desce os rios Araguaia e Tocantins. Em 2 de janeiro de 1882 passa pelas gravuras dos Martírios.
# 1888 Paul Ehrenreich ( etnólogo alemão) pesquisa o Rio Araguaia e copia parte das gravuras dos martírios.
# 1889 Luiggi Buscalioni ( botânico italiano) sobe o Rio Tocantins e o Araguaia.
# 1896 Ingacio Baptista Moura ( historiador brasileiro) Sobe o Rio Tocantins até a região onde vivem os Xerente.
# 1896 Carlos Leitão e comitiva descem o Tocantins até a foz do Itacaiúnas para implantação do Burgo do Itacaiúnas. # 1897 Estêvão Gallais (missionário francês) participa da fundação das missões dos dominicanos no Rio Araguaia. # 1897 Francisco Paula Castro ( militar brasileiro) procura encontrar ouro na Serra dos Martírios.
# 1897 Henri e Octavie Coudreau ( geógrafos, (exploradores, e fotógrafa, franceses) Descrevem e pesquisam os rios Tocantins e Araguaia. De Belém até a Ilha do Bananal.
# 1897 Casal Coudreau, sobe o Rio Tocantins e exploram o Itacaiúnas e o Rio Parauapebas A partir do início do século XX, muitos viajantes estiveram na região. Alguns deles famosos como Dra Snetlage em 191 1, Nimuendaju em 1914, Rondon em 1929 e Baldus 1935.
BIBLIOGRAFIA
* Leite Moraes, J.A. Apontamentos de Viagem. Ed. Penguin & Companhia das letras,
201 1
* Meirelles Filho, J. Grandes Expedições í Amazônia brasileira (1 500-1930) Metalivros
2009
* Meirelles Filho, J. Grandes Expedições í Amazônia brasileira. Sec. XX. Metalivros 2011
*Fundador da Casa da Cultura de Marabá (PA). Coordenou, entre os anos de 1986 a 2000, os estudos que levaram í criação do Parque Estadual Serra dos Martírios / Andorinhas.
Dest”™ arte, nobres amigos, tenho me afastado com o raiar dos anos. O cansaço pela verso veio montado no cavalo do jornalismo com sua pressa efêmera de noticiar e denunciar, informar e transbordar o cérebro com parágrafos muitas vezes inúteis. Quando conheci Camões e seus brasões assinalados aprendi que meu arsenal de verbos poderia ser substituído por uma força dramática mais enxuta e mais direta. Havia entrado na senda dos haikai. Hoje ainda me vem í mente a oficina de poesia com meus alunos de 5ª série da escola pública no Grão-Pará. Professor imberbe, propus um desafio í classe. Eles criariam haikais a partir de elementos, simples, enxutos, concretos, fenômenos da natureza.
A deixa:
“Joana, você não vai escrever sobre a estrela, você é a Estrela. Pedro, você não vai escrever sobre o rio, você é o Rio. Maria, não escreva sobre o relâmpago, você é o Relâmpago. Moisés, não escreva sobre o diamante que você encontrou, você é o próprio Diamante” E assim foi.
A poção mágica da poesia estava lançada naquela sala de aula e quase todos os alunos e alunas- filhos e filhas de operários, pescadores, feirantes do Ver-o-Peso ““ se compenetraram ao desafio. Foram colocados em uma outra perspectiva, a da imaginação, da projeção, do sonho. Tinham sido resgatados do chão sujo das feiras, da argila movediça dos mangues e das palafitas e colocados em um altar de crianças imaginativas, jovens adolescentes que eram provocados pelo professor de português e redação em seu início de carreira.
Não consigo transcrever aqui todas as pepitas de ouro puro resgatadas daqueles corações jovens, ávidos pelo belo, sedentos pela doçura do prometido, mas nunca encontrado naquela periferia de metrópole amazônica com seu vento de rio e seu cheiro de folhas misturados a um odor de concreto de prédios do futuro e vidros de shopping para apenas buscar emprego.
Não consigo, professores, lembrar de todos os haikais produzidos naquela oficina da escola pública, mas tenho dois aqui escritos por – não me lembro o nome dela, ou dele – mas era assim:
Floresta
encanto o mundo
com minha cor universal
com minha dor vermelha em chamas
grito por desespero
arrancam meu seio
secam meu veio
pois não me amas
como sou
Floresta.
E esse outro, escrito por outro aluno. Este, seu nome nunca esqueci: Moisés, o menino negro (ou preto) filho da faxineira da escola:
Diamante
Sou negro e brilhante
no meio da serra enterrado
luto com a terra fujo pra luz
sou negro e brilhante
Diamante
A poção mágica incandescente da poesia pousou naquela sala de escola pública naquele longínquo ano do passado. Como um relâmpago iluminou tudo. Lembro que por algum tempo aqueles meninos e meninas começaram a se tratar assim. “O Diamante faltou hoje. A Floresta foi ao banheiro. O Arco-iris não estudou para a prova. A Estrela esqueceu o caderno”.
Foram meus melhores dias como professor, pois tinha descoberto uma nova forma de amar e ser amado. Até me apelidaram, carinhosamente, isso soube muito tempo depois, de professor cai-cai. Não, não porque eu caia, mas pela semelhança sonora com haikai. Obrigado alunos, obrigado escola, obrigado poesia.
Cachoeira de Santa Izabel, no Rio Araguaia, antigamente chamada de Cachoeira Grande (Crédito Noé von Atzingen)
Memórias do Martírios: Primeiras ocupações não indígenas no Baixo Rio Araguaia e Rio Tocantins
por Noé von Atzingen – Setembro de 2023
Desde o século XVI os rios Araguaia e Tocantins foram utilizados como “estradas” por aventureiros e bandeirantes na busca de riquezas e para aprisionar indígenas. O primeiro registro que se tem de alguém passando pelo Rio Araguaia (Paraupava), é de Antonio de Macedo e Domingos Luiz Grou em 1590.
Obra de Coudreau, 1897: Voyage au Tocantins Araguaya
As primeiras tentativas de assentamentos foram no século XVIII, quando missionários católicos, com apoio do governo português, instituíram os Aldeamentos Indígenas, onde os nativos eram reunidos para trabalho, muitas vezes escravo.
No século XIX, o governo instituiu os Presídios: Pequeno núcleo de construções, localizadas em pontos estratégicos, que continham uma cadeia, uma capela, um estaleiro e alojamentos para a guarnição militar e para religiosos. O Presídio tinha as funções de proteger moradores e viajantes dos ataques dos indígenas arredios, servir de entreposto comercial, facilitar a navegação e catequizar os indígenas.
Vejamos a seguir algumas datas importantes na ocupação das margens do rio Tocantins na região compreendida entre Tucuruí (Alcobaça), ate o encontro com o Rio Araguaia.
Utilizaremos principalmente a obra de Coudreau, 1897: Voyage au Tocantins Araguaya e o artigo: Presídios militares e o Povoamento í s Margens do Araguaia:
Negociações e Conflitos (Unitins 2013).
Coudreau partiu de Belém em 31 de dezembro de 1896, subiu o Rio Tocantins no vapor General Jardim até Alcobaça. Dali subiu em canoa, a remo, os rios Tocantins e Araguaia, de 7 de janeiro a 23 de maio de 1897, chegando até o norte da Ilha do Bananal.
Em 1810 as primeiras casas são construídas em São Pedro de Alcântara, em território goiano (atualmente estado do Tocantins). Em 1816 apenas duas casas ainda existiam em São Pedro de Alcântara.
Burgo Agrícola Itacayuna (ilustração do livro de Coudreau)
Burgo do Itacaiunas
Em 1836, a Vila de São Pedro de Alcântara muda-se para rio acima, estabelecendo-se na margem maranhense do rio Tocantins, recebendo o nome de Carolina. Em 1895, Carlos Leitão tenta estabelecer o Burgo do Itacaiunas, provavelmente onde hoje é o bairro do Amapá em Marabá. Porém, a morte de 19 pessoas, por malária, durante os nove meses que lá estiveram, faz com que mude o Burgo para alguns quilômetros rio abaixo. Em 1897 0 Burgo do Itacaiunas tinha 80 habitantes.
Coudreau chega í pequena Vila do Lago Vermelho (Itupiranga) em 9 de fevereiro de 1897 e das 10 casas e seus 50 habitantes, encontra apenas uma casa habitada, pois os moradores das outras nove casas haviam fugido devido a invasão de formigas de fogo!
Em 1898, surgem as primeiras casas no pontal entre os rios Tocantins e Itacaiúnas dando origem a cidade de Marabá. A seguir, trataremos das primeiras ocupações não indígenas no Rio Araguaia: Em 1802 houve a criação do Presídio de São João do Araguaia (território goiano).
E 1850, existiam os presídios de São João do Araguaia, Santa Maria do Araguaia, Santa Izabel e Santa Leopoldina.
Églese de S. João do Araguaya (Ilustração do livro de Coudreau)
São João do Araguaia
Em 1862 foi criado o do presidio de São José do Araguaia . Quatro anos depois é criado o Presídio de São José dos Martyrios, estando localizado no lado goiano, pouco acima da Ilha dos Martírios. Alguns anos depois o Presídio de São José dos Martyrios é desativado.
Em 1894 início da Vila de São Bento, pouco acima de São João do Araguaia. Em 1897, Coudreau informa que a Vila tem 10 casas de palha.
Segundo Coudreau em 1897 São João do Araguaia tinha 50 casas e 200 habitantes Em 1897, o antigo Presidio de São José dos Martyrios, passa a ser a Vila São José do Amparo, com 6 casas de palha e 35 habitantes, aparentemente todos da mesma família, cujo chefe é um cego por nome Wanderley. Coudreau informa também que, parte dos antigos moradores da Vila de São José do Amparo mudaram-se para os campos no lado paraense, criando uma pequena Vila. Como esta Vila está no lado paraense e próxima de onde hoje está a Vila de Santa Cruz, acreditamos que possa ter dado origem í Vila de Santa Cruz, depois de 1897, pois Coudreau em sua passagem , não fala da existência de vila por ali.
Rio Araguaya (ilustração do livro de Coudreau)
São Vicente
Mas retornemos com Coudreau, subindo o rio Araguaia em 1897 e assinalando as ocupações: pouco acima de São João do Araguaia, próximo í grande ilha de São Vicente, na margem paraense está a pequena Vila de João Matheus com uma dezena de casas de palha, pouco acima da Vila de João Matheus, na margem goiana, está o povoado de São Vicente com 40 casas com aspecto muito pobre). Há também uma capela. A Vila tem cerca de 200 habitantes.
Em frente a São Vicente, no lado paraense, está a pequena Vila de Magnífico com apenas 5 casas.
Mais acima, no lado goiano, está o sítio denominado Falcão, com apenas duas casas.
Na região do igarapé Chichá, está o sítio Chichá de propriedade do maranhense Jacintho Alves Lima que ali vive há cinco anos. Portanto a ocupação seria de 1892. Além das plantações, tem também um engenho para produção de cachaça. (Seria a atual Santa Isabel do Araguaia?)
Fecho dos Martyrios (Crédito: Noé von Atzingen)
Cachoeira Grande
O próximo ponto digno de nota é a Cachoeira Grande (cachoeira de Santa Izabel) que é descrita minuciosamente. Pouco acima da Cachoeira Grande, descreve a Cachoeira dos Martyrios, que nada mais é que o pedral entre a margem paraense e a Ilha dos Martírios.
O estreitamento do rio nesse ponto é denominado Fecho dos Martyrios. Acima do Fecho dos Martyrios, no lado paraense está a Vila dos Campos, com remanescentes do Antigo Presídio de São José. Nesta região, entre a ilha dos Martírios e a foz do Ribeirão Sucupira, documentamos em 1990 um longo muro de pedra (vestígios da Vila dos Campos?). No lado oposto, Coudreau diz que está a Vila de São José do Amparo com 6 casas e 35 habitantes.
Acima da Vila de São José do Amparo, está a Vila de Remanso dos Botos com 56 pessoas. Pouco acima do Remanso dos Botos, na margem goiana, está Xambioá. Quando da passagem de Coudreau, o presidio de Xambioá não mais existia, havia uma pequena vila com 4 casas que pertenciam ao Sr. João Crysostomo. Coudreau encontra-se no local com os missionários dominicanos: Frei Gil de Villanova e Ange Dargainaratz. Acima de Xambioá, Coudreau relata que na região do travessão da Barreira Branca, na margem direita do Araguaia encontrou o local onde foi o Presidio de Barreira Branca.
BIBLIOGRAFIA * Coudreau.H.1897 Voyage auTocantinsAraguaya * Couto de Magalhães. Viagem ao Araguaia * Mattos M.V B de, 2013 História de Maraba * Reis e Pereira. 2007 Carolina * Silva, A. L.S. e Ertozogue, M.H. 2013 Presidios Militares e o Povoamento í s Margens do Araguaia: Negociações e Conflitos. Unitins
Nesta terceira parte do Memórias dos Martirios/Serra das Andorinhas, o biólogo e pesquisador Noé von Atzingen descreve os Grupos indígenas que viviam originalmente na região do baixo-Araguaia e baixo-Tocantins.
Desde tempos imemoriais, as margens dos majestosos rios Araguaia e Tocantins foram densamente habitadas. Prova concreta disto, são os muitos sítios arqueológicos, abrigos sob-rochas com comprovada ocupação antiga e grafismos rupestres encontrados nas adjacências das margens destes rios.
Por Noé von Atzingen – Setembro de 2023
Os registros indicam que vários grupos indígenas viviam ou perambulavam na região do baixo Araguaia e do baixo Tocantins. Faremos um breve apanhado dos grupos que foram observados principalmente por Coudreau em sua Voyage au AraguayaTocantins em 1 879, entre a região de Tucuruí (antiga Alcobaça) até Xambioá:
A margem direita do rio Tocantins, próximo a Alcobaça, até a confluência com o Araguaia, era território dos Gavião. Na mesma região, próximo a Breu Branco, Coudreau refere-se a uma única maloca de indígenas Anambé. Seriam os Amanagé, que atualmente vivem próximos í quela região? Na margem esquerda do rio Tocantins, proximo a Alcobaça, Coudreau relata a existência dos Tapirapé. Atualmente na região está a Terra Indígena Trocará, da etnia Assurini.
O casal Condreau
“Etnia incomum”
Subindo o rio Tocantins, já próximo í Itupiranga, Coudreau refere-se a uma “etnia incomum” provavelmente sejam os Parakanan que atualmente vivem na área. Mais acima, no interior da região do Burgo do Itacaiunas, na margem esquerda do rio
Tocantins, era território das grandes nações Kayapo e Xikrin, cuja influência se estendia até a região de Santa Maria das Barreiras no extremo sul do estado do Pará. Já a área da etnia Karajá, abrangia parte da ilha do Bananal e se estendia para o norte até Xambioá.
Margem esquerda
Passemos agora para a margem esquerda do rio Araguaia, próximo a São João do Araguaia: Ali vivia o grupo Apinajé/Xerente, cuja área de perambulação chegava até a Cachoeira Grande ( Santa Izabel).
Atualmente os Apinajé/Xerente vivem na terra indígena Xerente, próxima í cidade de Tocantinópolis, no Estado do Tocantins.
Na região da Serra das Andorinhas, vivem atualmente os Aikewara ( Surui) que não são referidos na obra de Coudreau. Os Aikewara me relataram que desde os tempos antigos, a Serra das Andorinhas era frequentada por eles para caça, pesca, coleta de frutos e coleta de taboca para flechas.
A região entre os dois grandes rios, hoje conhecida como Bico do Papagaio, era área de perambulação e confrontos entre os Karajá, Kayapó, Gorotire, Xavante, Apinage/ Xerente e Xambioá. Acreditamos que pela proximidade geográfica a etnia Krahô também por ali perambulava. Estes grupos, em várias ocasiões, se juntaram para defender seus territórios dos invasores brancos.
Etnia Karaja
Coudreau relata que na margem direita do Araguaia, na região de Xambioá , no Estado do Tocantins, vivia a etnia Karaja/ Xambioá, dispersa em pequenos grupos:
Acima de Xambioá, na região do igarapé das Lontras, Coudreau informa a existência de duas pequenas aldeias Karajá nas ilhas do Perdido. A Aldeia do Perdido com 3 malocas e 15 habitantes e a Aldeia do Cadete Pedro com 2 malocas e 10 habitantes .
Pouco mais acima, na região do travessão da Barreira Branca, descreve outra pequena aldeia Karajá. A aldeia do Raphael, com 4 malocas e 20 habitantes.
Em 15 de março de 1897, logo acima das corredeiras de Itaipavas, Coudreau chega í aldeia do Higino, com 15 malocas e cerca de 60 habitantes. Pouco mais acima, no rio Araguaia, encontra a pequena Aldeia Dereké, com uma única maloca grande, abrigando 25 pessoas.
Coudreau narra a terrível situação dos Karajá; “Povo disperso pelas guerras com outros grupos e com o branco, com fome, muitas doenças, sem roças…Ele coloca em dúvida a existência futura da etnia. Narra a luta dos padres Dominicanos para salva-los ‘I Les dominicains de Ia Barreira eux-memes nl enttretiennent plus í I l endroit des Carajas que I l esperance de sauver quelques enfants dans le naufrage de Ia nacion, amenant í Ia civilisation par I l école Ia progéniture des derniers Carajas ‘l
Coudreau, relata ainda que o grupo Karajá/
Xambioá esta reduzido a 195 pessoas, sendo que no passado sua população chegava a 1.350 indivíduos!
A etnia Caraja
Tempos atuais
Atualmente, na região destas últimas aldeias, está a Terra indígena Xambioá, muito provavelmente são descendentes daqueles pequenos grupos que estavam í beira da extinção! Atualmente os Xambioá se dividem em cinco aldeias e sua população ultrapassa 600 pessoas.
Lamentavelmente não falam mais sua língua ancestral e suas tradições estão bastante diluídas.
Para se ter uma ideia do poderio dos grupos indígenas da época, em 1813 é relatada a completa destruição do presídio de Santa Maria do Araguaia, hoje cidade de Couto de Magalhães, no estado do Tocantins, pela coligação Xerente, Karajá, Xavante. Este presídio foi destruído pelos aguerridos indígenas por três vezes !
Relata tambem que o Presídio de São José dos Martyrios foi também atacado várias vezes pelos indígenas das etnias Karaja, Kayapó e Xikrin. Atualmente é possível estabelecer várias das antigas ocupações indígenas na região do baixo Araguaia e baixo Tocantins, através dos mais de 50 sítios arqueológicos que documentamos nas décadas de 1980/ 90. É também possível identificar alguns dos assentamentos indígenas através da manutenção dos nomes antigos de localidades que felizmente sobreviveram ao tempo, como Araguanã, Itaipavas, Xambioá e Apinajes. Pelo menos dois deles estão ainda relativamente próximos das suas antigas aldeias; os Xambioa/Karajá que estão assentados atualmente no município de Santa Fé do Araguaia, em território junto ao Rio Araguaia, cerca de 100 km a sudoeste da cidade de Xambioá e os Apinajé (Xerente) cujo território , no estado do Tocantins, está entre as cidades de Tocantinópolis e Cachoeirinha. Atualmente este grupo está próximo ao Rio Tocantins, cerca de 150 KM a sudeste da sua antiga morada, a Vila de Apinajés no estado do Pará.
AGRADECIMENTO
Meus agradecimentos a querida Virgínia Mattos por suas sugestões e correções.
Os desenhos que ilustram esta publicação são do livro: Voyage au Tocantins-Araguaya.
BIBLIOGRAFIA DE APOIO
* Coudreau, H 1897 Voyage au TocantinsAraguaya. Paris, A. Lahure, Imprimeur-editeur *Couto de Magalhães, O Selvagem . Edusp.- 1975
* Meirelles, J.F. 2009 Grandes Expedições í Amazônia Brasileira. 1500-1930. Metalivros
* Nimuendaju, C. 1 981 Mapa etno-histórico IBGE.