Não era a primeira vez que bebia umas cervejas naquele bar. E não era um boteco, era um bar de responsa que fica em endereço consagrado da grande capital.
A mineirada proprietária é tudo gente boa e oferece aquelas cachaças de Minas que de tão suaves e doces dão a impressão que estamos na sobremesa e não nos aperitivos.
Acompanhado do grande filósofo Gabriel Alan Poe pedi a primeira cerveja que teria como coadjuvante uns bolinhos de macaxeira com carne seca e queijo Minas no miolo. Poe pediu uma de Curvelo, de uma cepa canavieira dos tempos do engenho. Bem mais curtida – com o devido sentido etimológico da palavra hoje avacalhado pelas mídias sociais – que as dos canaviais de aço inoxidável de Rio das Pedras e Pirassununga.
Entabulávamos as primícias criticando o gosto musical duvidoso da sexta-feira escriturária – que passa enjaulada toda a semana para, no limiar da liberdade – a sexta antes do sábado – se encurralar com música sertaneja de terceira categoria em plena Manhatan Piratininga. Vida de gado e eu ali pastando na cerca ao lado.
Chegou a cerveja e a cachaça . O garçom, com a gentileza mais bovina que se tem notícia na terra do virado a paulista abriu a garrafa e, com a delicadeza de um maítre, procedeu encher os copos. Ao abrir as asas, veio a torrente. Fluídos originários de uma cova podre, de uma fossa sanitária, invadiu-me as narinas. Não era o esgoto de Higienópolis que desce pela Maria Antônia, passa pela Vila Buarque e deságua no Anhangabaú. Não era. Era o sovaco do garçon. Serviu a cevada. Abre novamente as asas para servir a cachaça de Curvelo. Nova torrente, novo fluir de resquícios da catacumba.
O que fazer? Chamar o proprietário e expor o homem ao ridículo? Ser franco com o garçom e constrangê-lo ao ponto de ganhar um inimigo?
Pedi limão e no íntimo, perdão por meu egoísmo. Não sabia as dificuldades que esse homem passava ao ponto de não possuir um desodorante. E se pensam que mandei ele passar o ácido cítrico sobre as axilas se enganam. Não sou besta, apesar de aparentar. Espremi o limão no copo da caninha que Gabriel já degustara e pedi outra; bradei:
E trem bão sô! E viva os engenhos de Minas! E dei um gole, daqueles grandes.
Persuadido com minha sinceridade falsa (ou espontânea) o garçom fez coro, levantou o braço alçando a garrafa como um troféu e respondeu com as axilas à mostra com aquelas marcas redondas de ureia destilada na camisa:
– Viva a pinga de Minas!
Um forte espectro tomou de assalto o ambiente…todos os meus sentidos entraram em festa. Lembrei do samba de Vinícius e fiz minha batucadinha de branco na mesa de lata do bar:
“E melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe…”























