João Batista e Jack Kerouac

1
393

por Paulo Atzingen

Quando peguei a estrada em direção a Mirassol – sim este era o nome da cidade do colégio agrí­cola que havia escolhido no mapa para terminar meu curso médio – levava duas peças de roupa na mochila, somadas í  uma agenda que eu transformara em diário, e três ou quatro livros. Lembro do tí­tulo de dois deles: o Evangelho segundo João e On the Road, de Jack Kerouac. Se o primeiro me remetia aos ensinamentos equilibrados e espirituais aprendidos em um catecismo mal feito e uma primeira comunhão postiça, o segundo me projetava para um materialismo escancarado, uma forma revolucionária de ver o mundo e as pessoas por meio de um modo de pensar e agir existencialista: tudo para o agora.

À beira da estrada pra pedir carona (como cantava Belchior) lia trechos dos dois livros enquanto aguardava por uma boa alma que quisesse dividir uma viagem e ter companhia.

O sol da tarde dos verões interioranos é por vezes violento e passa por cima do Trópico de Capricórnio sem cerimônia queimando minha pele branca de paulista fugitivo da metrópole.  Vivia a fase rebelde da vida sem rock and roll e sem drogas. No lugar, misticismo, viagens reais e natureza. Tudo o que não cheirasse a mato, chuva e manhã para mim era artificial e se tivesse a mão do homem não era mais puro. Vivia a época do sim e do não, sem relativismos. Via árvores í  margem das rodovias e lamentava as suas condenações perenes. Brotariam, cresceriam, floririam e dariam frutos ali, em um mesmo lugar. E por estarem í  beira da estrada seus frutos apodreceriam, ninguém os colheria. Pensava nas pessoas que eram assim também e passaram suas vidas plantadas em um casa, em um pensamento fixo e nunca viajaram, nem em palavras, nem em imaginação. Com o sol mais baixo olhava para as longas nuvens que o tapavam e, como um filtro, acompanhava os raios em grandes feixes que faziam brilhar os canaviais distantes, como holofotes. Era uma visão colossal em que se fundiam as planí­cies alaranjadas de canaviais já colhidos e um céu avermelhado pronto para receber o betume da noite.

À estrada, quase vazia, não me criava grande esperanças de sair dali daquele quilômetro. Caminhei rente í  uma enorme propriedade rural produtora de etanol.

Cabritinhos da enorme fazenda que começava do outro lado da planí­cie se aproximam da cerca de arame farpado. Eram dóceis e puros como a neve e me observavam espantados. Me veio a mente o que escreveu Batista em seu evangelho que levava na mochila: “Lá vem os cordeirinhos de Deus que retiram o pecado do mundo”. Eles vinham em minha direção e não tinham medo, olhavam-me curiosos entre berros e saltos sobre o capim verde. Esse versí­culo por mim adaptado e casado a um coração juvenil livre me trazia lágrimas nos olhos. Foi gravado em minha mente e coração de moleque durante anos naquele canto católico-medieval louvado na igreja de meus pais que dizia assim: “Cordeiro de Deus, retirai os pecados do mundo, tende piedade de nós “. À beira da estrada, lembrava das missas dominicais e do enigma mental que levava para casa: “Quem seria esse cordeiro que vai retirar o pecado do mundo?”.

Me aproximei da cerca e toquei na testa de um cabritinho e pedi: “cordeirinho de Deus, retira o pecado do mundo, tende piedade de mim, faz um carro, um caminhão, parar para eu prosseguir minha viagem…”

Não demorou muito, um caminhoneiro deu seta, diminuiu a velocidade, e parou no acostamento. Me levou até uma rotatória que dava pra uma rodovia que imbicava para o Oeste. Subi na carroceria do veiculo em meio a uma cana queimada, recém colhida. Acenei para os cabritinhos que se transformaram em pontinhos brancos, até sumirem. Agradeci. Nesse dia tinha aprendido a rezar de verdade.

Sentei sobre a cana e me protegi do vento. Abri o livro de Kerouac justamente nesse trecho: “Assim, na América, quando o sol se põe, eu me sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e consigo sentir toda aquela terra crua e rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão, até a costa oeste, e a estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior?”


São Paulo (SP), outono de 2020

Compartilhe:

1 COMMENT

LEAVE A REPLY