A metamorfose de Franz Kafka e a minha – por Paulo Atzingen *

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Reli a obra de Franz Kafka ontem na sala de repouso e recuperação da clínica odontológica.

O livro, catado por acaso na estante de casa, era do tamanho de uma viagem de três horas para Salvador ou de um descanso pos-operatório resultado de uma cirurgia como essa, bastante invasiva e demorada.

Quando saí da cadeira do cirurgião-dentista, já com a sedação em petição de miséria, com parte do sangue  da mandíbula já saturado e com os pinos de titânio espalhados pela boca, restava-me acomodar no confortável canapé à meia-luz e esperar a dor passar.

Abri o drama de Gregor Samsa, personagem principal do livro, já lido e relido umas duas vezes, – essa foi a terceira – , e logo nos primeiras páginas, ao iniciar a leitura, a dor foi sendo aplacada.

Subliminar a dor ou o drama alheio é um dos bons frutos da literatura e ela me serve para duas coisas antagônicas, fugir da realidade instaurada, mas ao mesmo tempo me colocar diante dela e enfrentá-la. Obrigado palavras, obrigado verbos, substantivos, livros. Kafka.

A fábula de Franz Kafka, (1883 – 1924), escrita em 1912, relata a extraordinária transformação de Gregor Samsa em um besouro popularmente tratado na cultura tcheca como Mistkäfer (em alemão) e traduzido para o português como o vulgar rola-bosta.

Mesmo não metamorfoseado em um besouro rola-bosta, durante a experiência de duas horas na cadeira do cirurgião-dentista, a ausência total de controle de sua vida e a sensação de refém é bem parecida. O descanso–confinado depois da cirurgia lendo a obra do theco foi a certeza que a arte imita a vida e vice-versa.

Samsa após a metamorfose experimentou a prisão involuntária em seu quarto – ficou restrito a uma cama (um canapé como é descrito na obra), um abajour e um guarda-roupa sem a minima condição humana de descer de seu leito, girar a chave, abrir a porta e ir trabalhar.

O ponto alto que os avanços da implantodontia alcançou nos últimos 20 anos, com seus pinos de titânio, suas coroas e seus implantes osseointegrados, têm feito verdadeiros metamorfoses na restauração da fala, da correta mastigação de alimentos, mas principalmente, na harmonia estética de qualquer besouro. Os efeitos são fabulosos, visíveis, metamorfósicos, o duro é o processo (desculpem a redundância mas O Processo foi outra obra-prima de Kafka!).

Meus dentes de leite rebeldes, a falta de orientação de higiene bucal na infância e um acidente de bicicleta na adolescência em Santos quando dei de cara no poste, decretaram-me essa necessidade de repaginação dos dentes de tempos em tempos.

Com a qualidade técnica e cuidado profissional que tive na clínica, com o cumprimento das orientações pós-cirurgicas dadas pela equipe, tomando sorvete e me alimentando corretamente, tudo leva a crer que agora, um  novo Gregor Samsa, diferente da história, saia do seu quarto, e ainda mais confiante, abra suas asas verdes, e voe.

*Paulo Atzingen, outono de 2026.

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