A mulher-bomba do metrô

1
233

Por Paulo Atzingen*

A mulher encostou à minha frente, naquele fim de vagão de metrô, onde no canto tem os assentos azuis para os beneficiados pela idade, mulheres grávidas e deficientes. Esses lugares por estarem na ponta não são alcançados por pedintes e artistas já que esses irmãozinhos preferem o centro do trem e ali – nos cantos – encontro uma relativa paz. Mas não foi o que aconteceu. A moça em pé, fez uns movimentos bruscos procurando algo na mochila em meio aos peitos volumosos. Vestia-se com uma bata indiana, uma roupa exótica desses mundos inalcançados. Era jovem, no máximo levava 30 anos de primaveras na testa. É o máximo que posso, externamente, falar dela e essas minúcias foram reconstituídas depois da cena que narro a seguir…foi tudo rápido e detalhes me escapam…

O trem seguia da estação Ana Rosa para a da Paraíso e retorno para o meu mundo digital sem fundo e sem fim…o trem corre aqui dentro do túnel mas os dramas globais, federais e pessoais correm dentro desses túneis de sangue de cada um de nós.  Passo os olhos sobre a realidade atual nos títulos do jornal na telinha: Escândalo Jeffrey Epstein aumenta sua lista de envolvidos; Feminicídio no Brasil dispara; corrupção amplia lastro no mundo financeiro com Master, matricídio, peculato, fraudes em licitação, organizações criminosas…um coquetel melancólico para a cidadã e cidadão, brasileiro e brasileira médios que voltam do trabalho de cada dia…

Respiro fundo e volto meus olhos para a moça do vagão.

Ela mantém a busca por algum objeto em sua bolsa.  Sinto sua agitação e está em modo-desespero. Seria uma mulher-bomba prestes a acionar um botão e mandar tudo e todos para os quintos dos infernos? Penso, agitando-me e antevendo a manchete da Folha de São Paulo do dia seguinte: “Mulher-bomba mata 20 e interrompe fluxo de metrô em São Paulo. Cúmplice morre também!”. Os cronistas, poetas e mulheres-bomba sempre preferem o fundo dos vagões…

Alguns segundos antes de chegar  à estação Paraíso ela desprende-se da parede do fundo, dá dois passos, vira-se e encosta à porta oposta da saída dos passageiros. Começa a gritar, a plenos pulmões:

Me Deixa em Paaaaaaaaaz! Me deixaaaaaaaa!… Me deixaaaaaaaaa! Me deixa em Paaaaaaaaz! Eu quero Paaaaaaaaaaaz!!!!! Era uma voz aguda, forte, firme e vinha lá das vísceras…ela ofegava, parecia que ia ser arrebatada…

Silêncio total no vagão… Aquele manifesto soava profundo em cada um…

Era um surto psicótico? um santo baixado? um piti espetaculoso, ou nada disso?

Depois dos gritos ocorreu um hiato, um vazio, um abismo. Chegamos à estação Paraíso em silêncio sepulcral.

As portas se abrem, ela pula para fora do vagão em busca de ar, e  deixa sua mensagem em formato de bomba. Dezenas de passageiros entram no carro em um fluxo contínuo da vida. Os de dentro, estraçalhados, juntavam seus cacos.

São Paulo, outono de 2026

Compartilhe:

1 COMMENT

LEAVE A REPLY