Crônicas Germânicas I - Primeiras impressões em Potsdam

por PAULO ATZINGEN

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A situação de grana hoje aparenta ser fruto de uma civilização evoluí­da que só consome o que produz e só gasta o que pode

Antes mesmo de pousar em Berlim a paisagem me avisava que aqui era um mundo diferente: uma variação de verdes esticada até os alpes, e adentrando a cidade como se o verde mandasse no cinzento. A perder também de vista, hélices gigantes responsáveis por boa parte da energia elétrica de tudo isso aqui servia de postal.

Que castelos, umbrais e palacetes iriam me impactar eu sabia, mas o sentido de Estado Econômico  com uma postura sisuda em relação aos outros paí­ses da Europa se impunha e eu queria entender porque a Alemanha está tão bem com uma crise estourando ali fora.

E não se trata de uma silhueta de povo prepotente que quer virar as costas para o que acontece ao redor ““ sabemos como esse povo foi solidário principalmente consigo mesmo nas duas guerras que enfrentou – mas a situação de grana hoje aparenta ser fruto de uma civilização evoluí­da que só consome o que produz e só gasta o que pode.

Aqui se preparou a infraestrutura para o usufruto de seu povo e dos turistas e o Portão de Brandemburgo e o Muro de Berlim, antes sí­mbolos da guerra, hoje servem para emoldurar as fotos.

A questão da Alemanha ser assim, orgânica, regimentada e ordeira não é moral nem ética, mas trata-se do resultado de fragmentos e perdas que se sedimentaram com o tempo formando um conceito de vida que hoje acostumamos chamar de excelência.

Não vi bêbados, abuso no tratamento, desrespeito a idosos, a homossexuais, imprudência, nem mendigos, nem crianças abandonadas na rua ou idosos pedindo esmolas.

A polí­tica econômica do paí­s estabeleceu uma independência do Estado e por isso mesmo se exime de conchavos e falcatruas que facilitam a vida de um em detrimento de outro. Se um “politicus brasilis” aparecesse por aqui com certeza seria fuzilado no muro de Berlim em nome dessa verdadeira democracia. Sim democracia no vestir, no calçar, no caminhar pelas ruas. É gritante a capacidade que o povo alemão tem em distribuir e não concentrar, desenvolver know-how e não esconder fórmulas. Aqui nos faz lembrar de um antigo ditado grego: a riqueza não gera a virtude, mas são as virtudes que geram a riqueza”.

Carros do mesmo modelo dos brasileiros andam por aqui. Isso me faz pensar que só crescemos ou estamos no primeiro mundo porque possuí­mos os mesmos modelos de carro nas ruas que os alemães possuem. Nossa semelhança acaba aí­.

Potsdam

Percorro a pé os arredores da cidade de Potsdam e vejo os bares repletos de jovens entre 20 e 25 anos e, ao lado desses bares, estacionamentos de bicicletas. Aqui a herança de um paí­s inventor do automóvel emprestou uma auto-suficiência í  cultura das novas gerações que um rapaz não precisa necessariamente ter carro para ser respeitado. Jovens se orgulham em andar de bike, grisalhos idem já que mantém a forma esbelta e estão no páreo pela luta da espécie feminina.

Potsdam guarda todos os traços das cidades satélites (ou dormitórios) de um paí­s chamado…Alemanha

Há uma comunhão pací­fica entre o pedestre, o ciclista e o motorista.

Vive-se a vida! Tem-se a impressão que a ilógica pressa que as grandes metrópoles nos impõe é trocada por uma valorização intensa do tempo, do verde, das crianças e do que ainda resta de vida ““ no que se refere aos idosos.

Casais de cabelos brancos caminham por ruas de Potsdam e traduzem seu epí­logo de uma vida calma, lúcida e grande, o coroamento ““ pelo menos é o que aparenta ““ de uma história a dois.

Potsdam guarda todos os traços das cidades satélites (ou dormitórios) de um paí­s chamado…Alemanha. Sim, aqui em Potsdam os bares são silenciosos, não se escuta buzina e aparentemente vive-se um eterno sábado, ou hora da siesta.

A cidadezinha, turí­stica por excelência, tem hoje cerca de 130 mil habitantes e sua atmosfera agradável não dá pista de que aqui na noite de 14 para 15 de abril de 1945 os aviões dos aliados (USA, Inglaterra e União Soviética) bombardearam o centro da cidade determinando o fim da era Hitler.

Visitamos o Potsdam Sanssouci, um parque exuberante que tem como uma de suas construções o palácio de Cecilienhof. Aqui foi realizado a Conferência de Potsdam com a presença de Winston Churchill, Franklin Roosevelt e Josef Stalin). O objetivo desta conferência (de 17 de julho a 2 de agosto de 1945) era resolver os problemas que surgiram com o término da Guerra, entre eles estabelecer as zonas de ocupação, a desmilitarização, a punição dos criminosos de guerra e as reparações. Estas decisões, tomadas aqui em Potsdam, determinaram a estabilidade do paí­s por um bom tempo. Talvez hoje colhamos o fruto dessa reunião e com certeza podemos posar em paz para as fotografias.

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