Os bancos no bosque dos Jequitibás e suas histórias intrigantes

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São quase cinquenta  bancos instalados aqui sob as alamedas desse lindo bosque público. Cada um dá o seu recado de forma silenciosa, mas ouço, lá do fundo do tempo, essa gente paulista do interior dizendo o que fazia pra viver (Crédito das fotos: Paulo Atzingen)

Por Paulo Atzingen*

Se esses bancos de granilite falassem, iria sempre ao bosque dos Jequitibás ouvi-los, aqui em Campinas. Suas falas petrificadas ecoariam em minha falha audição, mas como tenho feito ultimamente, entenderia tudo por aproximação, intuição semântica ou leitura labial. Por enquanto, posso vê-los e suas histórias saltam aos olhos. São quase cinquenta  bancos instalados aqui sob as alamedas desse lindo bosque público. Cada um dá o seu recado de forma silenciosa, mas ouço, lá do fundo do tempo, essa gente paulista do interior dizendo o que fazia pra viver.   Veja:

 “Tesoura de Ouro completa tua elegância”. Esta alfaiataria funcionou na rua Costa Aguiar número 330 de 1935 a 1976. Pessoas elegantes, muito antes da era fast-food sentaram aqui. Eram homens com ternos bem riscados e mulheres revestidas em estampas floridas de um verão que passou.

“Joalharia Marrone, hora certa pelo fone 4777”. A rima proposital foi descoberta agora. Embora trabalhassem com jóias, seu dono, que deve ter sido bisavô do cantor sertanejo, se dedicou à relojoaria. Vejo que eles já eram artistas fazendo rimas.

“Lavanderia Universal, Francisco Paulo”. Este comerciante campineiro foi pioneiro na lavagem de roupa para fora e ganhou muito dinheiro de 1940 a 1960. Quebrou em 1970 com a popularização da máquina de lavar Brastemp.

“Bar Voga, o melhor pastel, de Rossi Gianfrancisco“, apostou no pastel e acabou perpetuando-se no ramo.   Fez uma freguesia imensa e até hoje faz seu pastel do Voga recheado de pernil com provolone.


“Fábrica de Espelhos de Matano e Companhia”. Esse empresário enriqueceu entre 1960 e 1969, porque nessa época a vaidade feminina e masculina aflorou.   Foi a década da mini-saia do iê-iê-iê e da pílula anticoncepcional. Seu sucesso, no entanto, teve fim com um raio que atingiu sua loja que ficava na rua Doutor Quirino, 1144.  Daí em diante teve 7 anos de azar e se aposentou.


“Café Tupi e Negrão”. Vejam que mix curioso só encontrado em um país como o nosso, tão diverso em matizes raciais, culturais e de fé. Seria Tupi a etnia da família da esposa que contrariando as tradições de época casou-se com um descendente afro e formaram uma família, depois uma sociedade?

“Casa Confiança Artigos para Lavoura“, ficava na rua 13 de Maio, 365. Foi inaugurada no ano que terminou a segunda Guerra Mundial. Ao nomear  o negócio Casa Confiança, seus proprietários doavam a quem chegasse uma dose de esperança de dias já sem notícias ruins e uma espécie de renovação de forças e fé para os agricultores das campinas.


“Waldemar Tierno, empreiteiro de Pinturas” funcionou na Duque de Caxias, 1091. Foi um dos pioneiros na eterna luta contra o tom cinza das cidades. Pintou os viadutos de branco dando um toque clean à Campinas, e pintou também a fachada da estação de trem naquele tom amarelo âmbar, emprestando aos que chegavam e partiam a  cor do pôr de sol, ou algo que se foi e já não existe mais.

Campinas, 12 de março de 2026

*Os bancos são verdadeiros, mas esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
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