Crack digital

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À margem do mundo em telinhas
com seu caos em linha reta
– um precipício na busca do nada –
vejo fantasmas, sombras bizarras
tropeço, caio, levanto
o cristal me acalma…
Sinto falta de ar e me espanto!
Ouço um baque
um tiro, um grito.
Minh’alma por uma pedra de crack!

Não sei quem está mais louco
com essa carga da mente pesando
se eu, com essa droga letal
que expulsa de mim o humano
ou tu
com a dopamina
de tua pedra digital

e teu mundo insano!

Se a força do vício me priva
da autoestima pessoal
teu vício pela telinha
te conecta a uma vida tribal

A tribo da impessoalidade assistida
da pose fingida
da personalidade destruída
tu és todos na sarjeta marginal
desse algoritmo global.

Dou-me ao lixo mas tenho a mente limpa
desse ópio moderno
Entorpecente que te enfronha
no comportamento das massas
dando-te a preguiça da maconha
e que se espalha pela cidade.
Um pacto de plasma
de eletrons e ions
casado com campanhas de publicidade.

Se o tráfico me dá essa droga
e rouba meu tempo e meu ser
sou vítima de um sistema e pago

sem merecer…

Mas tu não! o post do influencer digital
com uma mensagem superficial
te chapa!

resta-me dar-te um tapa!!
pra tu, viciado! largar a telinha!
e cair na real!

Tua dependência de estar logado
trocar viver o real
pelo superficial
Te faz um ser pasteurizado.
Trocar a água e o ar
pelo sinal da internet
o teu neurotransmissor
prepara tua vida para o fosso
para apatia de roer o osso
e a falsa impressão

de não ter mais dor.

São Paulo, outono 2026

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