Poema para quem foi

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Quando você chorou, foi quando te amei mais fundo e mais alto.
Era quando guardava tua luva de boxe e descia do teu salto alto.

No fundo, chorava teu choro de guerreira, marcada por uma luta antiga e diária,
trazida lá dos confins do tempo.

No fundo, amava teus heróis da guitarra, alçados ao teu altar musical,
às vezes humilde como uma formiga,
às vezes barulhenta, feito cigarra.

É certo que te mandei flores no endereço de seu trabalho para distingui-la na linha de montagem do ganha-pão proletário.

É certo que te fiz poemas nas datas de teu aniversário mas eles ficaram sem significado e morreram afogados pelo noticiário.

É certo que aquele brilho do começo
das palavras e dos risos espontâneos tornaram-me aquele que hoje desconheço.

É certo que parti (partiu) para um outro porto
e daqui reflito um pouco absorto
ao sair dessa cidade:
a viagem que não faremos,
o filho que não tivemos

o que seria e acabou não sendo
tudo, tudo, tudo hoje dentro do álbum
da saudade.

Ribeirão Pires, outono de 2026

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