Carta aos meus amigos Estevão Kenazokae, Salomão Nezokemazokai e Pedro Kezowe

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Amigos Estevão Kenazokae, Salomão Nezokemazokai e Pedro Kezowe, cheguei em terras paulistas. Muito obrigado! Foram só três dias aí na aldeia, mas pareceu mais tempo. Quero agradecer a hospitalidade e a transparência em vocês e no rio. Quero agradecer a  experiência em dormir dentro das hati, como são chamadas as ocas aí. Quero agradecer pela comida, muito bem preparada com pratos regionais do Mato Grosso, como os feitos da mandioca como a tapioca; o peixe e a banana da terra. As caminhadas para o rio Verde, os jogos como a peteca e o arco e flecha (criação de vocês, indígena, brasileira!).

Estevão, Salomão, me senti pobre e às vezes ridículo com minhas palavras de escritório e meu tênis que ” nem de marca  era”. O bom foi andar descalço!. Me senti nu em volta da fogueira ouvindo um de vocês contar a origem de sua gente e me senti estúpido quando citei o nome do Marechal Rondon em uma pergunta tola; sim, eu sei que ele nada mais fez que uma apropriação indébita (embranquiçada) querendo impor sobre uma cultura milenar um enlatado de sardinha americana! Caro Estevão, caro Salomão, caro Pedro, são tantas coisas que julgamos certas e que estruturalmente foram nos enfiadas goela abaixo sem nenhuma contestação! Agimos, falamos e pensamos porque foi instalado em nós um chip quando éramos crianças de achar a cultura indígena atrasada e destituída de sonhos e planos para o futuro. Vocês não pensam no amanhã, no imediatamente! Vocês pensam daqui há mil anos!

Estevão, você, em duas ou três palavras resumiu toda as lutas de classes, todas as razões das guerras que o homem civilizado tem empreendido nos últimos séculos.: “Temos muitas amizades de emboscada”.  Sim Estevam, sim Salomão, sim Simão, sim Abraao! Vivemos há muito tempo, e aqui incluo, nós todos, brasileiros, vivemos a cultura da emboscada com os amigos de emboscada!. É assim e foi assim. Nossas relações por aqui se tornaram relaçoes de interesse, comercial, emocional, relacional. Quando demonstramos docilidade – não é que somos frágeis ou fracos é que somos autênticos e sintonizados com o amor de Deus – o seu Deus Aruak  Hawaiyetya! Ocorre que o nosso Deus comum, amigos Paresi, não é o mesmo deus que foi criado para justificar erros históricos…O deus que nos foi imposto é um deus ocupado em fazer contas em sua tabela de excel, e que é usado para justificar a escravidão, as bombas em Hiroshima e Nagasaki, invadir países e explorar seu povo usando a força, o dinheiro e as bombas de efeito retardado da modernidade que são as fake news!

Vocês, caros caciques, Salomão, Pedro e Estevão foram os seres humanos que me identifiquei porque falavam de coisas estranhas (mas genuínas) como o tempo da terra, o caminho das águas, o eclipse do sol e a morte da lua… Ah, sim! É romântico meu pensamento aqui na cidade e ele beira a filosofia e a  utopia. O argumento que manda aqui é que é preciso produção em grande escala para suprir a demanda! Por que há fome no mundo! Pois está bem!  Que se produza sem matar! Pois que se plante grandes extensões de terras com toneladas de sementes sem sacrificar a terra, sem transformá-la  em um deserto de Nitrogênio Fosforo e potássio! Que se mecanize a agricultura que se use a IA nos processos mas que não se crie outras legiões de escravos assalariados! Que se produza comida suficiente para que se possa comprar, alimentar os pobres, os países da América, da África e da Ásia! Não tenho certeza amigos e torço para que esse acordo com os plantadores de soja do Mato Grosso que foi feito aí dê certo, que seus filhos tenham saúde e que vocês possam levar a maneira de vida de vocês, tão pura, tão simples – e também complexa para nós -, colorida e verdadeira.

Que vocês sobrevivam para o outro milênio para que possam mostrar aos nossos descendentes, sua genuína maneira de viver. Sim, sei que sobreviverão, porque Haliti-Paresi, como fiquei sabendo, na lingua Aruak, é um povo que vive, que viverá para sempre!!! Paulo Atzingen, inverno de 2026.

* Aldeia Indígena Haliti-Paresi, no oeste do  Mato Grosso

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