Nasci para as revoluções internas de reconhecer meus limites e de retornar a meu passado, sempre passando-me a limpo. Sou menos baby boomer, e mais geração X, e claro, agora assumido, sagitariano, do último decanato.
Mas, a cada trilha que faço e a cada abraço que dou na natureza de mim mesmo, percebo que não pensar seja a nossa ponte para construir a nossa matéria-prima, essencial. Ser é não pensar, como reforçou tal sangue pisado, tantas vezes lido, tantas vezes declamado, Fernando Pessoa, na pessoa de seu heterônimo Alberto Caeiro. Quando pensamos demais, aniquilamos nosso sentimento.

O meu olhar, como o de Caeiro é tão nítido como um girassol e quando estou na estrada vejo o que jamais tinha visto, nada se repete ou é igual ao que já foi.
“Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...*”
Alberto Caeiro, há um século antecipou o lugar-limbo ao qual os algoritmos nos colocaram como prisioneiros. Mas eu fujo desta gaiola sistêmica em cada estrada que caminho, em cada pedalada que dou.
Hoje, ao subir a Pedra do Elefante, minhas mãos se divorciaram do celular e minha visão contemplou o não pensar, apenas o sentir. E é sempre assim. Andar de bicicleta não é pensar, é sentir. Vejam: a luz da manhã bateu em meu rosto quando subi a montanha. Mesmo protegido pelo capacete de ciclista, pelos óculos escuro, a luz me chegou à pele. O vento me beija a pele, o sol mais forte me toca a pele e nela penetra e tenho isso não como um pensamento, mas como um sentimento.
No caminho o homem da pequena vendinha me diz que as abelhas sugam a coca-cola derramada e voam na direção da colmeia. Iniciamos um diálogo sobre o comportamento das abelhas, sobre o voo e a direção que elas estavam voando depois de sugarem a coca cola derramada. Depois falamos das cigarras que não cantam por aqui nesta época.
“O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo”. *
Estudo a geologia e a atmosfera terrestre quando pedalo. As pedras do caminho entram-me pelo olho direito e saem pelo esquerdo e mentalmente não elaboro nenhum enunciado. São apenas pedras do caminho. Não busco explicações, busco apenas superar a ladeira de mil metros que me surge à frente e que requer a força do coração e o ar que respiro. Sou um estudante do ar que funciona como meu óleo diesel.
Chego ao cume da montanha e encontro a pedra colossal que dá nome ao lugar. Este bloco gigante foi nominado pela tradição e pelos primeiros geólogos que aqui pisaram como Pedra do Elefante e assim ficou e assim é. Mas olhando bem com o sentimento e não com o olhar, essa pedra deveria ser chamada de Pedra do Peixe Boi.
O meu olhar, como o de Caeiro é tão nítido como um girassol e quando estou na estrada vejo o que jamais tinha visto, nada se repete ou é igual ao que já foi…

Ribeirão Pires; 2 de maio de 2026
*CAEIRO, Alberto, Poesia (O Guardador de Rebanhos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 24-25























