Um sentimento de pedra

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Nasci para as revoluções internas de reconhecer meus limites e de retornar a meu passado, sempre passando-me a limpo. Sou menos baby boomer, e mais geração X, e claro, agora assumido, sagitariano, do último decanato.

Mas, a cada trilha que faço e a cada abraço que dou na natureza de mim mesmo, percebo que não pensar seja a nossa ponte para construir a nossa matéria-prima, essencial. Ser é não pensar, como reforçou tal sangue pisado, tantas vezes lido, tantas vezes declamado, Fernando Pessoa, na pessoa de seu heterônimo Alberto Caeiro. Quando pensamos demais, aniquilamos nosso sentimento.

Pedra do Peixe-Boi
O meu olhar, como o de Caeiro é tão nítido como um girassol e quando estou na estrada vejo o que jamais tinha visto, nada se repete ou é igual ao que já foi (Paulo Atzingen)

O meu olhar, como o de Caeiro é tão nítido como um girassol e quando estou na estrada vejo o que jamais tinha visto, nada se repete ou é igual ao que já foi.

Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.  Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...*”

Alberto Caeiro, há um século antecipou o lugar-limbo ao qual os algoritmos nos colocaram como prisioneiros. Mas eu fujo desta gaiola sistêmica em cada estrada que caminho, em cada pedalada que dou.

Hoje, ao subir a Pedra do Elefante, minhas mãos se divorciaram do celular e minha visão contemplou o não pensar, apenas o sentir. E é sempre assim. Andar de bicicleta não é pensar, é sentir. Vejam: a luz da manhã bateu em meu rosto quando subi a montanha. Mesmo protegido pelo capacete de ciclista, pelos óculos escuro, a luz me chegou à pele. O vento me beija a pele, o sol mais forte me toca a pele e nela penetra e tenho isso não como um pensamento, mas como um sentimento.

No caminho o homem da pequena vendinha me diz que as abelhas sugam a coca-cola derramada e voam na direção da colmeia. Iniciamos um diálogo sobre o comportamento das abelhas, sobre o voo e a direção que elas estavam voando depois de sugarem a coca cola derramada. Depois falamos das cigarras que não cantam por aqui nesta época.

O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo”.  *

Estudo a geologia e a atmosfera terrestre quando pedalo. As pedras do caminho entram-me pelo olho direito e saem pelo esquerdo e mentalmente não elaboro nenhum enunciado. São apenas pedras do caminho. Não busco explicações, busco apenas superar a ladeira de mil metros que me surge à frente e que requer a força do coração e o ar que respiro. Sou um estudante do ar que funciona como meu óleo diesel.

Chego ao cume da montanha e encontro a pedra colossal que dá nome ao lugar. Este bloco gigante foi nominado pela tradição e pelos primeiros geólogos que aqui pisaram como Pedra do Elefante e assim ficou e assim é. Mas olhando bem com o sentimento e não com o olhar, essa pedra deveria ser chamada de Pedra do Peixe Boi.

O meu olhar, como o de Caeiro é tão nítido como um girassol e quando estou na estrada vejo o que jamais tinha visto, nada se repete ou é igual ao que já foi…

Olhando bem com o sentimento e não com o olhar, essa pedra deveria ser chamada de Pedra do Peixe Boi.

Ribeirão Pires; 2 de maio de 2026

*CAEIRO, Alberto, Poesia (O Guardador de Rebanhos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 24-25

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