O sol dilatava as minhas manhãs escolares e como um útero paria os meus primeiros poemas natimortos já que não tinha pra quem mostrá-los.

por Paulo Atzingen (Texto e som)

Aprendia, naquela época do primeiro ano de colégio agrícola a tocar gaita ouvindo pela primeira vez uns caras chamados Bob Dylan e Neil Young. Fiz duas boas amizades no internato, Sergio Moraes, que de moral e cívico não me ensinou nada, muito pelo contrário, me apresentou os discos dos nordestinos Ednardo e Fagner que ainda não eram conhecidos pela paulistada e não haviam estourado nas paradas de sucesso com seu Pavão Misterioso e Coração Alado, respectivamente.

Outro amigo era o Sebastião Costa, filho de portugueses e de família empresária de sapatos. Tião levava para o colégio botinas de couro legitimas e revendia a preço de fábrica para os agricolinos. Comprei duas e no dia que fui buscar as botinas em seu alojamento tinha uma fita cassete rodando. A música era de uma beleza psicodélica (sim, vivíamos a década de 80 e o psicodelismo já havia passado, mas os seus efeitos ainda não) e nela uma letra rural sintetizada entrou por meus ouvidos e coração dizendo mais ou menos assim: “estender o sol na varanda, até queimar, só pra dormir caçar e pescar, esquecer o medo, mudar de céu, mudar de ar, clarear de vez lumiar”…

Quem é? Perguntei ao Tião, que estava com as botinas na mão prontas pra me entregar e receber o dinheiro.

– É um mineiro chamado Beto Guedes, disse-me entregando os sapatos de roça. Tião não sabia, nem eu mesmo tinha ideia, mas naquele dia, naquele momento, descobria meu lumiar, meu sol de primavera que iria me acompanhar prá sempre.

Em meio aqueles canaviais frios e verdes do interior paulista – e a lógica do monocultura -rebrotava em mim um caminho menos compactado pelo trator, uma fábrica menos abatedora de frango e bovinos. O colégio agrícola foi uma fuga perfeita para um rebelde de família fragmentada e já no ocaso como a minha. Irmãos mais velhos casados, mãe morta, vida exposta.

Queria andar por uma vereda mais leve e solto – não que eu fosse vagabundo, tanto que eu gostava de horta e não fugia de um cabo de enxada, de uma foice. Plantei, cavei, estrumei, cortei lenha, fiz cerca, e aceiros de cerca,  e tinha uma predileção por práticas menos mecânicas e mais manuais. Talvez fosse um remanescente do período do carvão, ou antes, da pedra lascada e tudo o que era indústria e produção em série me incomodava.

As companhias também mimetizavam meu modo de pensar e ser. Um outro colega, Antonio Minhoca – seu próprio apelido entregava – era macrobiótico e de uma turma mais adiantada, pregava a agricultura alternativa,  a orgânica, uma bandeira contra os agrotóxicos. Foi outra característica que adotei em meu processo de contracultura. Estudar em um colégio agrícola e ser contrário às práticas de produção intensiva e em grande escala era assinar o diploma de fracasso para o mundo da produtividade, do atendimento da demanda, do consumo. Para mim, lá no fundo,  aquela ideia de produzir muito para atender a fome da humanidade tinha o embuste da enganação. Não havia preocupação com a fome do mundo, mas com o lucro do imundo, pensava.

Tolerava – na verdade eu detestava – aquela música sertaneja que a maioria dos meus colegas agricolinos comia e bebia. Com o tempo vim assimilar com menos impaciência os caipiras de raiz por sua sinceridade, mas jamais consegui engolir o sertanejo universitário.  Pra preencher o vazio dos longos finais de semana de internato acompanhávamos os rodeios de peão.

E foi em um rodeio desses, em Piracicaba, que conheci Samaria, a peoa que fez eu gostar de vaquejada.

Em troca eu mostrei pra ela o meu sol de primavera e toquei na gaita o Heart of Gold de Neil Young, que à época não tinha a mínima ideia o que dizia, mas que era mais ou menos assim:

“Eu quero viver, Eu quero doar Eu tenho cavado em busca de um coração de ouro”.

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