A casa de minha amiga Ciça

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Sou hóspede solitário na casa de minha amiga Ciça. Esta solidão, no entanto, é uma solitude necessária, um convite para observar a aura desta região da Serra do Mar que agora pela manhã está engolida por uma neblina densa que lembra o fog londrino, sem clichê.

Ciça viajou e deixou a casa sob a minha guarida. Seu único pedido foi colocar água em uma planta que fica na mesa da sala. É uma casa confortável, de engenharia moderna acabamentos refinados e geminada com outras duas, robustas, como irmãs siamesas saudáveis.

A casa é bonita por fora, mas o que chama a atenção é o que tem por dentro. Ciça é caiçara e seus traços de mar, seu caráter azul marinho, seu perfil inquieto como ondas que arrebentam na praia eu sinto aqui, nesta casa.

A casa de minha amiga Ciça tem tapetes de croché por todos os cômodos e só por isso sei o quanto ela ama os trabalhos feitos à mão, construídos na ourivesaria diária das oficinas urbanas, nos ateliês das periferias.

Ciça é artífice de sentimentos bons que trouxe de sua infância no mar. Por isso nos demos bem. Os pontos do croché espalhados pelo chão da casa devem lhe remeter às redes alvas dos pescadores de Ilhabela, ou mais exatamente a seu pai, quando voltava pra casa depois de um dia no azul.

Como hóspede solitário percorro os cômodos da casa para encontrar vestígios de seu velho mar de Ilhabela. Entrar e estar em uma casa de gente autêntica é assustar-se de como a sutileza dos objetos nos escrevem.

A cozinha tem panelas de ferro que remetem para os antigos fogões do passado e ao misterioso sabor original da comida. Sobre a geladeira uma peça em cerâmica decorada com rosas em um acabamento acetinado que deve ter no mínimo cem anos.

No quarto de hóspedes, onde fica o sofá e a TV, onde me instalei, um mosaico circular, no canto esquerdo do aposento, bem discreto, traz a figura da Rainha do Mar,  Iemanjá.

A cozinha é separada da sala de jantar por uma bancada sólida revestida por granilite e sobre essa bancada há objetos que nos lançam ao litoral: peixes entalhados, sereias em ferro artesanal, conchas em alumínio, e ao fim, no fim da bancada, na parede, uma baleia Cachalote pintada sobre uma base de madeira.

Na sala de jantar, entre taças e copos, um búzio se realça, dentro da cristaleira. Sobre este móvel elegante, um timão e um pequeno barco de pesca nomeado Sarita II. Seria o barco de seu pai?

No quarto de minha amiga um chapéu de praia pendurado na parede com uma renda e um laço no côco com seu nome escrito em um fio cordonê de algodão: Ciça.

Invado ainda mais o âmago da intimidade de minha amiga ausente. Sou um hóspede afortunado que faz uma leitura aproximada do que rege e nutre a vida de uma pessoa que me é solidária e que me abre a casa como um irmão. A penteadeira tem o ar solene dos tempos imemoriais de outros tempos e vejo aqui, os símbolos de fé que Ciça carrega. No canto esquerdo vejo, abaixo do espelho, uma boneca de pano sentadinha com seu chapéu bordô. É a infância dela em sua doçura mais autêntica. Isso tudo revela o que eu já sabia: minha amiga Ciça, embora agitada na forma, nos gestos e no andar, guarda a paz e a esperança de uma menina sentada na praia olhando pro mar esperando seu pai voltar do azul.

Entrar e estar em uma casa de gente autêntica é assustar-se de como a sutileza dos objetos nos escrevem.

Paulo Atzingem, Ribeirão Pires (SP); outono 2026.

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